Tá
certo que o texto tá atrasado mas, a questão não se trata de se amarrar a
datas e sim, de se atentar às mensagens
que estas datas remetem. A Semana Santa nos leva a um período de reflexão mas
isso não significa que a reflexão tenha que se limitar a um época especifica
determinada pelo calendário, podendo ser feita a todo momento, todo dia e
pasmem, você nem precisa ser católico pra isso.
Durante muitos anos, a trajetória
de Cristo vem sendo propagada pelo cinema, na verdade, desde os primórdios da
sétima arte e muitos deles sempre estão fortemente atrelados à uma visão
unidimensional do Filho de Deus, quase que como fugir disso, se tornaria uma heresia,
algo abominável e que geraria revolta e descontentamento por parte do público.
Pois bem, para um diretor como
Martin Scorsese, a história seria diferente. Afinal de contas, o cinema de
Scorsese nunca foi algo que estivesse afeito à uma experiência “simples”. Para
aqueles que conhecem o diretor apenas pelos filmes de máfia como Os Bons Companheiros, Cassino ou o mais
recente O Irlandês, saiba que ele vai
muito além disso, na realidade, analisando a sua filmografia percebemos que
durante toda a sua trajetória os seus filmes passearam por diferentes gêneros e
estilos como comédia, suspense, terror, documentários e até musicais (Todd
Philips tá assistindo muito inclusive um deles para se “inspirar” para o seu Joker: Folie à Dieux). E outro tema que
poucos costumam atrelar ao diretor é o da religião.
Com tantas obras que abordam a violência,
talvez o mais desavisado estranhe que um tema como religião seja trabalhado na
sua filmografia. Mas é só reparar que, desde o início de seu percurso como
realizador, a religião e violência são coisas inerentes em muitos dos personagens dos seus
filmes e claro, era questão de tempo até ele retratar a trajetória de Cristo a
partir de sua visão única e desafiadora.
Mas o que de fato tem de tão
subversivo, herege, até mesmo demoníaco no livro e por consequência no filme?
Na realidade, essa ideia tem muito mais a ver como a forma que, durante
séculos, temos como “certa” a vida que Cristo teve e o que ele representa. Pois
o que aprendemos como unânime e longe de qualquer discussão é que Cristo foi um
ser divino e que como tal, esteve avesso à certos aspectos ditos como “humanos”
tais como: medo, raiva, angústia e desespero.
O que o livro de Kazantzákis
oferece é mostrar um Jesus simplesmente mais humano, alguém que esteve sempre
ciente da sua importância mas, que também esteve com medo de ter tamanha
responsabilidade, alguém que no início da sua peregrinação não entendia muito bem
como lidar com seus dons mas que, no fim, percebe o que era preciso para chegar
à redenção. Agora um breve aviso de SPOILER pra quem não leu o livro e nem
assistiu ao filme. E porque esse título? A última tentação de Cristo seria o
que? Bom, ao vermos Cristo sendo tentado diversas vezes pelo demônio para que
seu objetivo como salvador não fosse concretizado, já no fim, estando
crucificado, Cristo tem sua última batalha. Um anjo aparece para ele, dizendo
que não era mais preciso que ele ficasse na cruz, sua missão estava completa e
não precisaria mais sofrer. É nessa parte, principalmente, onde moram as
principais críticas em relação à obra, porque o que vemos depois é que o que
aconteceria com Cristo se ele tivesse uma vida normal, com filhos, esposa e
envelhecendo até morrer. E ele escolhe ter uma vida normal e filhos não com
qualquer mulher mas, com Maria Madelena(!), onde o livro narra (e o filme
também mostra) cenas onde os dois tem relações sexuais. Pois bem, já no seu
leito de morte, tendo vivido bastante, e usufruído de tudo que um ser humano
poderia ter tido, Jesus é visitado pelos seus antigos discípulos para uma
última conversa e ao ser confrontado por eles, Jesus percebe que foi enganado,
na verdade o anjo que havia aparecido para ele na cruz era mais uma artimanha
do demônio e que, tendo vivido uma vida simples como humano, havia condenado o
mundo ao seu apocalipse. Cristo então tem o seu momento de redenção, ao negar a
vida que teve para voltar ao sofrimento da cruz e enfim selar o seu destino
como salvador.
Talvez, estas linhas não
demonstrem o tamanho rebuliço que o livro causou. A obra foi proibida em
diversos países e considerada como blasfemo pela Igreja Católica. Mas o que
motivou então Scorsese a mexer nesse vespeiro, colocando em risco a sua
carreira no processo? Seria ele um ateu disposto a fazer uma obra atacando a
igreja? Na verdade não.
Como falei antes, a religião sempre foi um
tema recorrente em muitos dos seus filmes, às vezes de forma explícita mas,
também apenas subentendida, afinal de contas, aspectos como sacrifício e
redenção estão em quase todos os seus filmes. O que levou Scorsese a enfrentar
um sistema tão conservador como Hollywood foi a admiração que ele sempre teve à
Cristo e a figura que envolvia o lado divino e humano. Segundo ele, “já haviam
muitos filmes que abordam o lado divino de Cristo, sempre quis ver o aspecto
humano, a natureza humana que havia em Cristo”. E foi justamente isso que ele
viu ao ler o livro do Kazantzákis, e vale ressaltar que Scorsese é um católico
fervoroso que, quase foi padre(!). Pois é, mesmo assim, ele viu na obra mais do
que simplesmente algo feito para chocar, na realidade, ele viu uma visão de
Cristo que, por mais ousada e cheia de liberdades que havia em relação à
Bíblia, falava muito mais com suas ideias do que a visão totalmente divina com
a qual havia crescido. Foi com profundo respeito e admiração ao personagem de
Cristo que Scorsese resolveu levar às telas o livro mas, infelizmente, não foi
com esse mesmo olhar que muitos viram e o diretor enfrentou diversos problemas
tais como boicotes em festivais e até mesmo atentados à sua vida.
O ano era 1988, século passado
e a visão de um Cristo mais humano, que mostrava suas falhas e tinha medo da
morte não agradou muita gente. Será que hoje essa visão seria melhor aceita pelo
público de hoje? Será que o conservadorismo e uma visão “pequena” das coisas
ficaram no passado, abrindo caminho para que todos possam fazer uma análise
mais crítica e contundente de temas considerados como “verdades incontestáveis”?
Será que hoje podemos imaginar um Cristo mais humano e que se importa com os
problemas que insistem em persistir na sociedade? Como o bispo de Nova York
Paul Moore Jr, na época do lançamento do filme falou “algumas pessoas podem
ficar chateadas ao ver Cristo representado como inteiramente humano, mas ele
era. Espero que mentes mais sábias do que aqueles que ameaçam boicote vejam o
filme e se sintam tocados por ele como eu me senti.” E como um meme bem comum
hoje relacionado à figura de Martin Scorsese, isso meu caro, é cinema.
PS.:
Este filme está na lista “obras que você precisa ver”. Nota 10.

