segunda-feira, 10 de abril de 2023

SCORSESE E A DUALIDADE DE CRISTO

 


                 

               Tá certo que o texto tá atrasado mas, a questão não se trata de se amarrar a datas  e sim, de se atentar às mensagens que estas datas remetem. A Semana Santa nos leva a um período de reflexão mas isso não significa que a reflexão tenha que se limitar a um época especifica determinada pelo calendário, podendo ser feita a todo momento, todo dia e pasmem, você nem precisa ser católico pra isso.

             Durante muitos anos, a trajetória de Cristo vem sendo propagada pelo cinema, na verdade, desde os primórdios da sétima arte e muitos deles sempre estão fortemente atrelados à uma visão unidimensional do Filho de Deus, quase que como fugir disso, se tornaria uma heresia, algo abominável e que geraria revolta e descontentamento por parte do público.

             Pois bem, para um diretor como Martin Scorsese, a história seria diferente. Afinal de contas, o cinema de Scorsese nunca foi algo que estivesse afeito à uma experiência “simples”. Para aqueles que conhecem o diretor apenas pelos filmes de máfia como Os Bons Companheiros, Cassino ou o mais recente O Irlandês, saiba que ele vai muito além disso, na realidade, analisando a sua filmografia percebemos que durante toda a sua trajetória os seus filmes passearam por diferentes gêneros e estilos como comédia, suspense, terror, documentários e até musicais (Todd Philips tá assistindo muito inclusive um deles para se “inspirar” para o seu Joker: Folie à Dieux). E outro tema que poucos costumam atrelar ao diretor é o da religião.

              Com tantas obras que abordam a violência, talvez o mais desavisado estranhe que um tema como religião seja trabalhado na sua filmografia. Mas é só reparar que, desde o início de seu percurso como realizador, a religião e violência são coisas  inerentes em muitos dos personagens dos seus filmes e claro, era questão de tempo até ele retratar a trajetória de Cristo a partir de sua visão única e desafiadora.


                Ao ter conhecimento do livro A Última Tentação de Cristo, do grego Nikos Kazantzákis (sugiro fortemente que procure por essa obra), Scorsese meio que colocou o trabalho de adaptar essa história para o cinema como uma questão de honra. Isso porque o projeto de adaptação durou anos, mais especificamente 14 anos(!) até que fosse feito. Scorsese teve que ir contra vários executivos poderosos da indústria de Hollywood, que não queriam ver o seu dinheiro atrelado à uma obra tão “subversiva” e “herege” como muitos afirmaram. Ele levou muitos “nãos” na cara, até que finalmente pode ter o seu objetivo finalmente alcançado.

                Mas o que de fato tem de tão subversivo, herege, até mesmo demoníaco no livro e por consequência no filme? Na realidade, essa ideia tem muito mais a ver como a forma que, durante séculos, temos como “certa” a vida que Cristo teve e o que ele representa. Pois o que aprendemos como unânime e longe de qualquer discussão é que Cristo foi um ser divino e que como tal, esteve avesso à certos aspectos ditos como “humanos” tais como: medo, raiva, angústia e desespero.

                 O que o livro de Kazantzákis oferece é mostrar um Jesus simplesmente mais humano, alguém que esteve sempre ciente da sua importância mas, que também esteve com medo de ter tamanha responsabilidade, alguém que no início da sua peregrinação não entendia muito bem como lidar com seus dons mas que, no fim, percebe o que era preciso para chegar à redenção. Agora um breve aviso de SPOILER pra quem não leu o livro e nem assistiu ao filme. E porque esse título? A última tentação de Cristo seria o que? Bom, ao vermos Cristo sendo tentado diversas vezes pelo demônio para que seu objetivo como salvador não fosse concretizado, já no fim, estando crucificado, Cristo tem sua última batalha. Um anjo aparece para ele, dizendo que não era mais preciso que ele ficasse na cruz, sua missão estava completa e não precisaria mais sofrer. É nessa parte, principalmente, onde moram as principais críticas em relação à obra, porque o que vemos depois é que o que aconteceria com Cristo se ele tivesse uma vida normal, com filhos, esposa e envelhecendo até morrer. E ele escolhe ter uma vida normal e filhos não com qualquer mulher mas, com Maria Madelena(!), onde o livro narra (e o filme também mostra) cenas onde os dois tem relações sexuais. Pois bem, já no seu leito de morte, tendo vivido bastante, e usufruído de tudo que um ser humano poderia ter tido, Jesus é visitado pelos seus antigos discípulos para uma última conversa e ao ser confrontado por eles, Jesus percebe que foi enganado, na verdade o anjo que havia aparecido para ele na cruz era mais uma artimanha do demônio e que, tendo vivido uma vida simples como humano, havia condenado o mundo ao seu apocalipse. Cristo então tem o seu momento de redenção, ao negar a vida que teve para voltar ao sofrimento da cruz e enfim selar o seu destino como salvador.

               Talvez, estas linhas não demonstrem o tamanho rebuliço que o livro causou. A obra foi proibida em diversos países e considerada como blasfemo pela Igreja Católica. Mas o que motivou então Scorsese a mexer nesse vespeiro, colocando em risco a sua carreira no processo? Seria ele um ateu disposto a fazer uma obra atacando a igreja? Na verdade não.

               Como falei antes, a religião sempre foi um tema recorrente em muitos dos seus filmes, às vezes de forma explícita mas, também apenas subentendida, afinal de contas, aspectos como sacrifício e redenção estão em quase todos os seus filmes. O que levou Scorsese a enfrentar um sistema tão conservador como Hollywood foi a admiração que ele sempre teve à Cristo e a figura que envolvia o lado divino e humano. Segundo ele, “já haviam muitos filmes que abordam o lado divino de Cristo, sempre quis ver o aspecto humano, a natureza humana que havia em Cristo”. E foi justamente isso que ele viu ao ler o livro do Kazantzákis, e vale ressaltar que Scorsese é um católico fervoroso que, quase foi padre(!). Pois é, mesmo assim, ele viu na obra mais do que simplesmente algo feito para chocar, na realidade, ele viu uma visão de Cristo que, por mais ousada e cheia de liberdades que havia em relação à Bíblia, falava muito mais com suas ideias do que a visão totalmente divina com a qual havia crescido. Foi com profundo respeito e admiração ao personagem de Cristo que Scorsese resolveu levar às telas o livro mas, infelizmente, não foi com esse mesmo olhar que muitos viram e o diretor enfrentou diversos problemas tais como boicotes em festivais e até mesmo atentados à sua vida.

                 O ano era 1988, século passado e a visão de um Cristo mais humano, que mostrava suas falhas e tinha medo da morte não agradou muita gente. Será que hoje essa visão seria melhor aceita pelo público de hoje? Será que o conservadorismo e uma visão “pequena” das coisas ficaram no passado, abrindo caminho para que todos possam fazer uma análise mais crítica e contundente de temas considerados como “verdades incontestáveis”? Será que hoje podemos imaginar um Cristo mais humano e que se importa com os problemas que insistem em persistir na sociedade? Como o bispo de Nova York Paul Moore Jr, na época do lançamento do filme falou “algumas pessoas podem ficar chateadas ao ver Cristo representado como inteiramente humano, mas ele era. Espero que mentes mais sábias do que aqueles que ameaçam boicote vejam o filme e se sintam tocados por ele como eu me senti.” E como um meme bem comum hoje relacionado à figura de Martin Scorsese, isso meu caro, é cinema.

PS.: Este filme está na lista “obras que você precisa ver”. Nota 10.  


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