quinta-feira, 18 de maio de 2023

CONTROL E IAN CURTIS

 


Existência... bem, o que isto importa?

Eu existo da melhor maneira que consigo.

O passado é, agora, parte do meu futuro,

O presente está totalmente fora de alcance.

O presente está totalmente fora de alcance.

Trecho da letra Heart and Soul


             Pode-se dizer que existem poucos filmes biográficos realmente muito bons. Isso porque existem inúmeros fatores que meio que deixam a obra um pouco “amarrada” e acabam atrapalhando o seu potencial. Agora, enquanto escrevo estas linhas, me vem na memória La Bamba (1987), The Doors(1991) e Control(2007).

               Control narra a história curta porém potente da banda Joy Division e mais especificamente, aborda a vida tortuosa do seu então líder e vocalista, o genial Ian Curtis.

              O período era a década de 70, a Inglaterra passava por um período de extremas mudanças sociais e políticas, a classe trabalhadora passava por grandes perrengues, graças a uma visão bastante intransigente da então Primeira Ministra, Margaret Thatcher. Em termos musicais, entretanto, o país passava por uma fase de extrema ebulição, aos poucos o rock psicodélico, que já sofria com desnecessários virtuosismos, dava espaço para o crescente punk, um som mais visceral e cru, oriundo de jovens sem nenhum estudo musical mas, com muita vontade em expressar uma mensagem para o mundo. Além disso, o glam rock, capitaneado por nomes como David Bowie e grupos como New York Dolls jogava contra qualquer tipo de parametrização, subvertendo a estética e trazendo à tona a libertação sexual.

               Nesse interim, o jovem Ian Curtis(interpretado com muita sobriedade por um desconhecido Sam Riley) vivia de forma pacata na cidade de Manchester. Se casando muito cedo aos 19 anos, já trabalhando no serviço público, Ian sentia que algo não estava certo. Ele almejava algo aliado à arte, mais precisamente trabalhar com música mas, a vida parecida que havia lhe dado um outro rumo, um rumo no qual ele não se sentia feliz. Foi em um show, em 1976, que mudou tudo. No palco quem estava era uma banda ainda dando seus primeiros shows e a plateia, que incluía Ian e sua esposa e mais um pequeno grupo de amigos, perceberam que ali havia uma possibilidade deles também, fazerem música. Ah, quem estava se apresentado eram os Sex Pistols...

              Com os amigos Peter Hook no baixo, Bernard Summer na guitarra e Stephen Morris na bateria, a banda estava pronta. Curtis ficaria a cargo das letras e da voz e aí a história da música passaria para uma nova fase.


              
 Ian sempre foi um amante, por assim dizer, dos tormentos da alma. Muito inspirado por gente como Bukowski, Cooper Clarke, Baudelaire, entre outros e também pelo ambiente opressor que era Manchester naquele período, Curtis traduzia toda a sua inadequação e angústia nas suas letras. Com 22 anos, Ian já se mostrava como um senhor de 80 anos. Os outros integrantes o viam como mais um entre eles mas, o que de fato acontecia, era que nas músicas, Ian já dava sinais de que algo o estava consumindo. A pressão com o sucesso repentino, os shows que estavam se acumulando, o nascimento da filha bem como sua relação extraconjugal e uma inevitável depressão aliada a um tratamento totalmente errôneo da sua epilepsia tornaram por criar uma pressão absurda em seus ombros.
              Era 18 de maio de 1980, numa manhã tipicamente cinza em Macclesfield, região próxima à Manchester, que sua esposa, Deborah Curtis, o encontra em casa, enforcado com as cordas de um varal. A banda havia lançado apenas o primeiro disco, Unkown Pleasures e estava com o segundo disco, Closer, já todo pronto e se encontrava às vésperas para uma turnê em solo norte-americano. Era o fim de um jovem poeta de apenas 23 anos mas, a sua curta passagem por aqui rendeu reverberações. Thom Yorke com o seu Radiohead, Eddie Vedder e o seu Pearl Jam, Bono Vox com U2, Renato Russo com a Legião Urbana, esses só são alguns que beberam e ainda bebem da fonte criada por Ian Curtis e o seminal Joy Division.
              

               O filme, dirigido por Anton Corbjin, é preciso e acompanha todas agruras e os poucos momentos felizes de Ian, onde Sam Riley entrega não só um personagem, mas uma pessoa de fato, com inseguranças, incertezas, com uma incapacidade latente em comunicar para aqueles que mais amava como se sentia, incapacidade essa que o trouxe a um fim trágico. Difícil imaginar outra pessoa a dirigir esse filme senão o próprio Corbjin, já que ele conheceu o grupo na sua época como fotógrafo e graças ao sucesso póstumo que a banda teve que fez com que o trabalho de Anton fosse visto por muito mais gente, sendo requisitado por várias bandas de sucesso mundial durante toda a década de 80, como Depeche Mode e U2.

                  Em nota, o filme é baseado não só nas memórias de Anton com a banda mas sim, do livro escrito pela própria esposa de Curtis, que por aqui teve o título Ian Curtis – Tocando À Distância. É um dos raros casos de leia, ouça e veja. Enjoy!

Quando a rotina é pesada e as ambições são pequenas

E o ressentimento voa alto mas as emoções não crescem

E estamos mudando nossos caminhos,

pegando estradas diferentes

Então o amor, o amor vai nos separar de novo

O amor, o amor vai nos despedaçar de novo

Trecho da letra Love Will Tear Us Apart Again 




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