Sempre
é bom rever filmes, reler livros e com eles recordar um pouco uma época não
muito distante (ou será que é?) e imaginar como eram simples e tranquilos
aqueles tempos. Evidente que, muito daquilo imaginado esteja apenas na mente
mesmo, sendo constantemente modificado, reconfigurado para que nós, sempre
possamos dizer: “como eram bons aqueles tempos”. Às vezes, é só o seu cérebro
tentando lhe enganar.
Essa sensação, de que estava sendo
enganado pela minha mente, surgiu ao rever Ilha
das Flores, trabalho estupendo de Jorge Furtado. Para mim, a primeira vez
que tive contanto com o filme foi na escola, na distante década de 90, numa
aula de geografia, ministrada pela professora Cristina. E já vou pedindo
desculpas por lembrar apenas do primeiro nome da professora mas, talvez seja a
minha mente tentando já pregar uma peça, rs.
O filme, datado de 1989, apresenta
em seus 13 minutos, uma denúncia real, mostrando uma situação degradante vivida
pela população mais pobre de uma região do Sul do país. A história é simples e
concisa, nela conhecemos o lugar que dá título ao filme, uma região nas
proximidades de Porto Alegre, onde há um lixão, cujo os funcionários separam o
material orgânico adequado para alimentar os porcos e o restante não usado é
dado para alimentar mulheres e crianças (!). Fora o choque inicial de saber
que, aquilo que não é usado para alimentar um porco é dado para um ser humano
comer, ainda descobrimos que os funcionário do local separam em pequenos grupos
e oferecem cinco minutos(?) para que as pessoas peguem o máximo possível no
meio do lixo.
Por que esse filme em questão me
mexeu tanto na memória? Porque esse é um dos melhores filmes brasileiros sem
sombra de dúvidas. Um filme que, infelizmente retrata uma situação que insiste
em continuar no nosso país e não só nele. E que por essa razão, não fica fácil
de sair da cabeça por quem o assiste.
O mais interessante que, ao ver
hoje, pude perceber detalhes que na primeira vez que vi não tinha me atentado.
Os recursos cinematográficos usados por Jorge Furtado são de uma genialidade
ímpares. Desde o primeiro momento, somos levados pelo narrador (ninguém mais
ninguém menos que Paulo José) a uma rede, quase infindável, de conexões até nos
depararmos com o final, que é poético, desolador e nem um pouco otimista.
Depois de uma década imerso nesse
mundo de conexões que a internet oferece, pude perceber que lá em 1989, quando
o computador só aparecia em filme de ficção científica, Furtado meio que
anteviu o que iria acontecer. Digo isso pois, a forma como o filme é feito,
evidencia que ele antecipou e muito, o que vemos hoje na net.
Pra começar, temos o formato da obra, que é todo feito como um vídeo-ensaio. Pra quem não sabe, basta ver no Youtube milhares de canais que se utilizam desse modo de produzir vídeos para perceber que o filme de Furtado faz uso desse artifício. Curioso pra saber? Veja o filme e procure no Youtube canais que fazem o mesmo e descubra. Não será nada difícil.
O uso de narração acompanhado de inúmeras imagens ilustrativas, cortes rápidos, edição precisa e um texto carregado de humor e ironia nos momentos certos, deixam a obra “fácil” de digeri-la. É justamente essa sacada que Furtado tem e ele faz muito bem. No primeiro momento, somos bombardeados com conceitos, que embora todos nós sabemos, fica divertido de ver justamente devido as conexões que cada uma dessas definições é colocada no filme. “Como assim divertido?”, você pode perguntar. Como um filme que, na verdade é uma denúncia real sobre como a população mais pobre de uma determinada região do país é tratada de forma menos indigna do que um porco pode soar divertida é porque, a apresentação dessa denúncia feita pelo diretor é toda planejada para que tenhamos esse choque. Primeiro vemos as conexões com palavras chave como tomate, humano, dinheiro, lucro, entre outras até chegarmos de fato, a denúncia que o filme propõe fazer. Em uma cena a gente ri, pra logo depois ficarmos estupefatos com outra cena onde uma criança tem cinco minutos para pegar o resto de comida do lixo. É essa dicotomia que o diretor usa de forma até cruel.
Outro fato que mostra como esse é
um filme visionário é como ele trabalha um conceito bastante em voga nos dias
de hoje e que você que está lendo agora usa diariamente. Falo do conceito de
hiperlink.
Hiperlink é o termo que é dito
para mostrar como a internet funciona. Afinal de contas, a net nada mais é do
que um emaranhado de informações, cada um conectado a um link, que ao clicarmos
sobre ele aparece um outra informação que é acompanhado de outro link e assim
sucessivamente. Em outras palavras, é o hiperlink que faz com que começamos a
pesquisar sobre bomba atômica no Google e duas horas depois estamos lendo uma
fofoca do Big Brother Brasil.
E é esse conceito, da definição de uma palavra-chave que vai levando a uma outra palavra-chave e assim por diante, que o filme utiliza. Dos seus 13 minutos, pelo menos os 6 iniciais são totalmente baseados dessa forma. São tantos os conceitos, e todos eles ligados de forma bastante coerente que poderíamos até elaborar um mapa mental sobre tudo que o filme fala.
Olha ai um mapa mental só com os conceitos apresentados no filme. Esse é um. Será que você pode fazer sempre um desses pra cada filme que você assiste? Fica a dica.
Sendo assim, não tem como lamentar como a situação inumana apresentada no filme, ainda é vivida por muitos daqueles que não tem como ao menos ter o direito à comida. Direito à necessidades básicas e o direito à uma vida digna. Infelizmente, o descaso com a população mais pobre sempre foi falada mas nunca combatida e cenas, como a que vemos no filme, se tornaram tão corriqueiras que o nosso cérebro faz com que tal situação seja confortável. E isso não pode ser assim. O cérebro é capaz de nos pregar peças mas, ao mesmo tempo, é com ele que podemos mudar a nossa realidade.






