quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

ILHAS DAS FLORES E O BRASIL QUE INSISTE EM CONTINUAR O MESMO

 

             

Sempre é bom rever filmes, reler livros e com eles recordar um pouco uma época não muito distante (ou será que é?) e imaginar como eram simples e tranquilos aqueles tempos. Evidente que, muito daquilo imaginado esteja apenas na mente mesmo, sendo constantemente modificado, reconfigurado para que nós, sempre possamos dizer: “como eram bons aqueles tempos”. Às vezes, é só o seu cérebro tentando lhe enganar.

            Essa sensação, de que estava sendo enganado pela minha mente, surgiu ao rever Ilha das Flores, trabalho estupendo de Jorge Furtado. Para mim, a primeira vez que tive contanto com o filme foi na escola, na distante década de 90, numa aula de geografia, ministrada pela professora Cristina. E já vou pedindo desculpas por lembrar apenas do primeiro nome da professora mas, talvez seja a minha mente tentando já pregar uma peça, rs.


             De fato, não tinha como, naquela época, assistir a um filme desses se não fosse trazido por uma professora “diferente” em uma escola pública que não tinha nada de diferente. A professora Cristina demorou pouco tempo naquele ano (foi substituída) mas, teve tempo de trazer pra nossa sala o filme Ilha das Flores.

             O filme, datado de 1989, apresenta em seus 13 minutos, uma denúncia real, mostrando uma situação degradante vivida pela população mais pobre de uma região do Sul do país. A história é simples e concisa, nela conhecemos o lugar que dá título ao filme, uma região nas proximidades de Porto Alegre, onde há um lixão, cujo os funcionários separam o material orgânico adequado para alimentar os porcos e o restante não usado é dado para alimentar mulheres e crianças (!). Fora o choque inicial de saber que, aquilo que não é usado para alimentar um porco é dado para um ser humano comer, ainda descobrimos que os funcionário do local separam em pequenos grupos e oferecem cinco minutos(?) para que as pessoas peguem o máximo possível no meio do lixo.

             Por que esse filme em questão me mexeu tanto na memória? Porque esse é um dos melhores filmes brasileiros sem sombra de dúvidas. Um filme que, infelizmente retrata uma situação que insiste em continuar no nosso país e não só nele. E que por essa razão, não fica fácil de sair da cabeça por quem o assiste.

             O mais interessante que, ao ver hoje, pude perceber detalhes que na primeira vez que vi não tinha me atentado. Os recursos cinematográficos usados por Jorge Furtado são de uma genialidade ímpares. Desde o primeiro momento, somos levados pelo narrador (ninguém mais ninguém menos que Paulo José) a uma rede, quase infindável, de conexões até nos depararmos com o final, que é poético, desolador e nem um pouco otimista.

             Depois de uma década imerso nesse mundo de conexões que a internet oferece, pude perceber que lá em 1989, quando o computador só aparecia em filme de ficção científica, Furtado meio que anteviu o que iria acontecer. Digo isso pois, a forma como o filme é feito, evidencia que ele antecipou e muito, o que vemos hoje na net.

             Pra começar, temos o formato da obra, que é todo feito como um vídeo-ensaio. Pra quem não sabe, basta ver no Youtube milhares de canais que se utilizam desse modo de produzir vídeos para perceber que o filme de Furtado faz uso desse artifício. Curioso pra saber? Veja o filme e procure no Youtube canais que fazem o mesmo e descubra. Não será nada difícil.

             O uso de narração acompanhado de inúmeras imagens ilustrativas, cortes rápidos, edição precisa e um texto carregado de humor e ironia nos momentos certos, deixam a obra “fácil” de digeri-la. É justamente essa sacada que Furtado tem e ele faz muito bem. No primeiro momento, somos bombardeados com conceitos, que embora todos nós sabemos, fica divertido de ver justamente devido as conexões que cada uma dessas definições é colocada no filme. “Como assim divertido?”, você pode perguntar. Como um filme que, na verdade é uma denúncia real sobre como a população mais pobre de uma determinada região do país é tratada de forma menos indigna do que um porco pode soar divertida é porque, a apresentação dessa denúncia feita pelo diretor é toda planejada para que tenhamos esse choque. Primeiro vemos as conexões com palavras chave como tomate, humano, dinheiro, lucro, entre outras até chegarmos de fato, a denúncia que o filme propõe fazer. Em uma cena a gente ri, pra logo depois ficarmos estupefatos com outra cena onde uma criança tem cinco minutos para pegar o resto de comida do lixo. É essa dicotomia que o diretor usa de forma até cruel.

              Outro fato que mostra como esse é um filme visionário é como ele trabalha um conceito bastante em voga nos dias de hoje e que você que está lendo agora usa diariamente. Falo do conceito de hiperlink.

               Hiperlink é o termo que é dito para mostrar como a internet funciona. Afinal de contas, a net nada mais é do que um emaranhado de informações, cada um conectado a um link, que ao clicarmos sobre ele aparece um outra informação que é acompanhado de outro link e assim sucessivamente. Em outras palavras, é o hiperlink que faz com que começamos a pesquisar sobre bomba atômica no Google e duas horas depois estamos lendo uma fofoca do Big Brother Brasil.

               E é esse conceito, da definição de uma palavra-chave que vai levando a uma outra palavra-chave e assim por diante, que o filme utiliza. Dos seus 13 minutos, pelo menos os 6 iniciais são totalmente baseados dessa forma. São tantos os conceitos, e todos eles ligados de forma bastante coerente que poderíamos até elaborar um mapa mental sobre tudo que o filme fala.

               


            Olha ai um mapa mental só com os conceitos apresentados no filme. Esse é um. Será que você pode fazer sempre um desses pra cada filme que você assiste? Fica a dica.

             Sendo assim, não tem como lamentar como a situação inumana apresentada no filme, ainda é vivida por muitos daqueles que não tem como ao menos ter o direito à comida. Direito à necessidades básicas e o direito à uma vida digna. Infelizmente, o descaso com a população mais pobre sempre foi falada mas nunca combatida e cenas, como a que vemos no filme, se tornaram tão corriqueiras que o nosso cérebro faz com que tal situação seja confortável. E isso não pode ser assim. O cérebro é capaz de nos pregar peças mas, ao mesmo tempo, é com ele que podemos mudar a nossa realidade.


              


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

GLASS ONION E O CINISMO DE RIAN JONHSON

 

                Benoit Blanc (Daniel Craig) aporta na Netflix com uma nova investigação cheia de bom humor, bizarrices e acidez social, que foram tão bem dosadas na sua primeira aventura, o também divertido Entre Facas e Segredos. O novo filme, Glass Onion¸ que tem um subtítulo horrível que nem ouso colocar nestas linhas (o subtítulo serve mais para pegar os desavisados que se trata de uma sequência) mostra, mais uma vez, que o cinema de Rian Jonhson não é de brincadeira.



                

                 Este é o sexto filme do diretor e é interessante ver a sua escalada em relação aos temas que aborda em cada um dos seus filmes e a marca que cada vez é mais evidente: o cinismo.

            Em Looper, tínhamos uma história de viagem no tempo ao mesmo tempo interessante e intricada, já em Star Wars – Os Últimos Jedi, Rian levou ao máximo o seu cinismo criando uma história que causava uma disrupção tão grande em vários “dogmas” da franquia Skywalker que acabou assustando e causando a ira de muitos fãs ardorosos da saga espacial, o que levou uma mudança de planas drástica da Dysney, culminando no deplorável Star Wars A Ascensão Skywalker, um filme que no futuro certamente será estudo na aula ”Não faça um filme querendo agradar todo mundo”.

          Disrupção, veja que essa palavra permeia toda a estrutura de Glass Onion e é cada vez mais perceptível como as intenções de Jonhson em querer criar algo ao mesmo tempo, permeado de clichês notórios, para logo em seguida quebrar com todas as previsões, só aumentam a cada filme seu e isso é simplesmente, maravilhoso.

             Na trama, que é toda feita tendo a pandemia como pano de fundo, temos um grupo de “amigos” (bota aspas nisso) sendo convidado por um deles para um fim de semana numa ilha remota, o motivo é bem simples: eles tem que desvendar quem o assassinou. Vamos sendo apresentados a cada um do grupo, há a celebridade em declínio(Kate Hudson) que passa por problemas sérios toda  vez que abre a boca, o cientista (Leslie Odom Jr), uma política (Kathryn Hahn), um atuante nas mídias sociais que leva seu discurso pró armamento (Dave Bautista) e uma antiga parceira(Janelle Monáe) que tem assuntos sérios a resolver. Todos foram convidados pelo excêntrico Miles Bron (vivido por um Edward Norton satisfeito com o papel), que veste a máscara de gênio incompreendido mas que, na verdade, tem muito a esconder.


               Alguns podem até dizer que o filme tem uma estrutura inicial simples demais ou que é apenas “bobinho” mas, a intenção do diretor é propor justamente essa falsa ideia de simplicidade nas ações que se apresentam durante o filme, para depois, apresentar uma reviravolta interessante. Há ainda uma camada de acidez que Johnson solta ao abordar a total futilidade da chamada “classe abastada”, com todas as suas idiossincracias. Basta ver o personagem de Norton, o seu Miles Bron não tem nenhum cuidado em não se parecer com o Elon Musk, no filme vemos um sujeito estúpido que se utiliza da inteligência dos outros para se promover e ficar milionário, não se preocupando nenhum pouco com consequências. É um subtexto mordaz e que traz um vigor para a obra. 

              Por se tratar de uma sequência, este novo filme, diferente do primeiro, tem ainda uma bela vantagem que é o personagem de Craig (o nosso detetive de intelecto diferenciado e bastante perspicaz aos detalhes), já ser devidamente conhecido do público, muito embora, tanto no primeiro como neste filme, aos poucos vamos conhecendo mais detalhes íntimos do personagem, o que mostra mais uma sacada esperta do diretor, nos deixando ainda mais curiosos por mais detalhes da vida do personagem.

              Daniel Craig, definitivamente, tem o personagem da vida aqui, até numa situação melhor do que na época(não muito distante) em que carregava o posto de 007. Melhor porque, diferente do agente britânico, o personagem de Blanc não requer ao astro, peripécias acrobáticas ou momentos de ação enervantes. É um tipo de personagem que pode ser seu até os 60 anos(rs) ou mais. E se as próximas aventuras(que com certeza haverá) desse detetive forem realizadas com todo esse afinco, pode ter certeza, que estarei esperando com a expectativa nas alturas. 


sábado, 4 de fevereiro de 2023

CABEÇA DE NÊGO E A RELAÇÃO COM FOUCAULT

 


            

            Michel Foucault (1926-1984) foi e ainda é, um dos principais filósofos contemporâneos. Seus estudos que foram deixados para posteridade retratam um pensador inquieto, crítico das relações humanas, sejam elas feitas de forma macro e micro e sobre as chamadas relações de poder que existem em diversos níveis dentro da nossa sociedade.

            Existem diversos períodos da vida acadêmica de Foucalt, que poderiam levar anos e anos de discussões e estudos. Mas, agora, para esse texto, irei apenas me ater ao chamado Foucault genealógico. Esse período foi fortemente marcado por uma de suas obras máximas, chamado Vigiar e Punir. Nessa obra, ele apresenta a história das instituições disciplinares, indo de presídios até hospitais, passando por escolas e igrejas e como todas estão, de alguma forma, ligados a aplicação da disciplina por excelência, dentro de um aspecto sócio-político, ditando assim, nossa forma de pensamento e de convívio na sociedade.


            E pra que todo esse introdutório? Porque nosso filme em questão trata justamente deste tema. Cabeça de Nêgo (2021)¸ roteirizado e dirigido por Déo Cardoso, aborda justamente essas relações de poder que existem, no caso uma escola de ensino, pública, totalmente abandonada pelo próprio poder público e  carente em diversos níveis.

             No filme, vemos o personagem de Saulo Chuvisco (Lucas Limeira), introvertido e traumatizado por uma tragédia familiar e que, percebendo o descaso que sua escola sofre, decide ele mesmo, impor mudanças, entrando em atrito direto com alguns professores, que o veem como um empecilho à sua zona de conforto e principalmente, arranjando briga com a gestão da escola, criando assim um clima insustentável. O estopim, ocasionado através de um insulto racista dentro da sala de aula, leva Saulo até as últimas consequências para pôr em prática a sua visão de justiça.


            E qual a relação de Foucault com o filme em questão?  Existem várias camadas que poderíamos tirar do filme mas, o que me chama mais atenção é a questão, que Foucault coloca como Microfísica do Poder. Para o leitor entender vou dar um pequeno spoiler das atitudes de um personagem do filme mas, que ao meu ver, não compromete o impacto da trama. Vamos lá....

           Saulo, no seu ato de rebeldia contra o sistema em questão, decide não sair das dependências da escola, fazendo assim uma ocupação, com o intuito de mostrar a realidade dura e aterradora da escola, como a merenda que está vencida, livros que estão abarrotados dentro de um almoxarifado e que nunca foram usados, banheiros degradantes e salas de aula sem nenhum conforto. Dentro dessa instituição, vemos o personagem do porteiro, de nome Walter, interpretado por Val Perré. Nessa percepção foucaultiana, temos o personagem que tem o “poder”, ou micro poder, de fazer com que os outros entrem e saiam da escola. Foi muito acertado a escolha feita pelo diretor, pois temos um personagem vivido por um ator negro e que, diferente de Saulo, outro negro, ainda não passou por um sentido de transcender aquele espectro autoritário e não tem entendimento do que o jovem quer passar com sua atitude, usando então do seu poder, para continuar a punir e vigiar, atendendo simplesmente os anseios do gestor.

            Durante boa parte do filme, vemos Walter, ali apenas como um representante do poder macro, no caso do diretor, vivido por Carri Costa. Essa representação é quebrada, já perto do final do filme, quando finalmente, ele percebe o que de fato, as ações de Saulo poderiam fazer naquela realidade e que não é o jovem o verdadeiro vilão da situação mas, sim, a ferramenta necessária para uma mudança.

            Só esse fato já poderia colocar esse filme como um dos mais poderosos feitos atualmente, um filme que conversa muito bem com a crítica social, com o cinema feroz e atuante de um Spike Lee, um cinema que questiona a sua própria realidade como visto em Eles não usam black-tie, enfim, um cinema que coloca, bem depois da sua cena final, que é triste e infelizmente real, algo pra pensar na cabeça daquele disposto a ver. Arte é isso. Arte é confronto. 



CINEMA PERNAMBUCANO E 3 FILMES

              Hoje falaremos um pouco sobre o cinema pernambucano. A partir dos anos 2000, o cinema de Pernambuco se consolidou como um dos ...