segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

GLASS ONION E O CINISMO DE RIAN JONHSON

 

                Benoit Blanc (Daniel Craig) aporta na Netflix com uma nova investigação cheia de bom humor, bizarrices e acidez social, que foram tão bem dosadas na sua primeira aventura, o também divertido Entre Facas e Segredos. O novo filme, Glass Onion¸ que tem um subtítulo horrível que nem ouso colocar nestas linhas (o subtítulo serve mais para pegar os desavisados que se trata de uma sequência) mostra, mais uma vez, que o cinema de Rian Jonhson não é de brincadeira.



                

                 Este é o sexto filme do diretor e é interessante ver a sua escalada em relação aos temas que aborda em cada um dos seus filmes e a marca que cada vez é mais evidente: o cinismo.

            Em Looper, tínhamos uma história de viagem no tempo ao mesmo tempo interessante e intricada, já em Star Wars – Os Últimos Jedi, Rian levou ao máximo o seu cinismo criando uma história que causava uma disrupção tão grande em vários “dogmas” da franquia Skywalker que acabou assustando e causando a ira de muitos fãs ardorosos da saga espacial, o que levou uma mudança de planas drástica da Dysney, culminando no deplorável Star Wars A Ascensão Skywalker, um filme que no futuro certamente será estudo na aula ”Não faça um filme querendo agradar todo mundo”.

          Disrupção, veja que essa palavra permeia toda a estrutura de Glass Onion e é cada vez mais perceptível como as intenções de Jonhson em querer criar algo ao mesmo tempo, permeado de clichês notórios, para logo em seguida quebrar com todas as previsões, só aumentam a cada filme seu e isso é simplesmente, maravilhoso.

             Na trama, que é toda feita tendo a pandemia como pano de fundo, temos um grupo de “amigos” (bota aspas nisso) sendo convidado por um deles para um fim de semana numa ilha remota, o motivo é bem simples: eles tem que desvendar quem o assassinou. Vamos sendo apresentados a cada um do grupo, há a celebridade em declínio(Kate Hudson) que passa por problemas sérios toda  vez que abre a boca, o cientista (Leslie Odom Jr), uma política (Kathryn Hahn), um atuante nas mídias sociais que leva seu discurso pró armamento (Dave Bautista) e uma antiga parceira(Janelle Monáe) que tem assuntos sérios a resolver. Todos foram convidados pelo excêntrico Miles Bron (vivido por um Edward Norton satisfeito com o papel), que veste a máscara de gênio incompreendido mas que, na verdade, tem muito a esconder.


               Alguns podem até dizer que o filme tem uma estrutura inicial simples demais ou que é apenas “bobinho” mas, a intenção do diretor é propor justamente essa falsa ideia de simplicidade nas ações que se apresentam durante o filme, para depois, apresentar uma reviravolta interessante. Há ainda uma camada de acidez que Johnson solta ao abordar a total futilidade da chamada “classe abastada”, com todas as suas idiossincracias. Basta ver o personagem de Norton, o seu Miles Bron não tem nenhum cuidado em não se parecer com o Elon Musk, no filme vemos um sujeito estúpido que se utiliza da inteligência dos outros para se promover e ficar milionário, não se preocupando nenhum pouco com consequências. É um subtexto mordaz e que traz um vigor para a obra. 

              Por se tratar de uma sequência, este novo filme, diferente do primeiro, tem ainda uma bela vantagem que é o personagem de Craig (o nosso detetive de intelecto diferenciado e bastante perspicaz aos detalhes), já ser devidamente conhecido do público, muito embora, tanto no primeiro como neste filme, aos poucos vamos conhecendo mais detalhes íntimos do personagem, o que mostra mais uma sacada esperta do diretor, nos deixando ainda mais curiosos por mais detalhes da vida do personagem.

              Daniel Craig, definitivamente, tem o personagem da vida aqui, até numa situação melhor do que na época(não muito distante) em que carregava o posto de 007. Melhor porque, diferente do agente britânico, o personagem de Blanc não requer ao astro, peripécias acrobáticas ou momentos de ação enervantes. É um tipo de personagem que pode ser seu até os 60 anos(rs) ou mais. E se as próximas aventuras(que com certeza haverá) desse detetive forem realizadas com todo esse afinco, pode ter certeza, que estarei esperando com a expectativa nas alturas. 


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