sábado, 4 de fevereiro de 2023

CABEÇA DE NÊGO E A RELAÇÃO COM FOUCAULT

 


            

            Michel Foucault (1926-1984) foi e ainda é, um dos principais filósofos contemporâneos. Seus estudos que foram deixados para posteridade retratam um pensador inquieto, crítico das relações humanas, sejam elas feitas de forma macro e micro e sobre as chamadas relações de poder que existem em diversos níveis dentro da nossa sociedade.

            Existem diversos períodos da vida acadêmica de Foucalt, que poderiam levar anos e anos de discussões e estudos. Mas, agora, para esse texto, irei apenas me ater ao chamado Foucault genealógico. Esse período foi fortemente marcado por uma de suas obras máximas, chamado Vigiar e Punir. Nessa obra, ele apresenta a história das instituições disciplinares, indo de presídios até hospitais, passando por escolas e igrejas e como todas estão, de alguma forma, ligados a aplicação da disciplina por excelência, dentro de um aspecto sócio-político, ditando assim, nossa forma de pensamento e de convívio na sociedade.


            E pra que todo esse introdutório? Porque nosso filme em questão trata justamente deste tema. Cabeça de Nêgo (2021)¸ roteirizado e dirigido por Déo Cardoso, aborda justamente essas relações de poder que existem, no caso uma escola de ensino, pública, totalmente abandonada pelo próprio poder público e  carente em diversos níveis.

             No filme, vemos o personagem de Saulo Chuvisco (Lucas Limeira), introvertido e traumatizado por uma tragédia familiar e que, percebendo o descaso que sua escola sofre, decide ele mesmo, impor mudanças, entrando em atrito direto com alguns professores, que o veem como um empecilho à sua zona de conforto e principalmente, arranjando briga com a gestão da escola, criando assim um clima insustentável. O estopim, ocasionado através de um insulto racista dentro da sala de aula, leva Saulo até as últimas consequências para pôr em prática a sua visão de justiça.


            E qual a relação de Foucault com o filme em questão?  Existem várias camadas que poderíamos tirar do filme mas, o que me chama mais atenção é a questão, que Foucault coloca como Microfísica do Poder. Para o leitor entender vou dar um pequeno spoiler das atitudes de um personagem do filme mas, que ao meu ver, não compromete o impacto da trama. Vamos lá....

           Saulo, no seu ato de rebeldia contra o sistema em questão, decide não sair das dependências da escola, fazendo assim uma ocupação, com o intuito de mostrar a realidade dura e aterradora da escola, como a merenda que está vencida, livros que estão abarrotados dentro de um almoxarifado e que nunca foram usados, banheiros degradantes e salas de aula sem nenhum conforto. Dentro dessa instituição, vemos o personagem do porteiro, de nome Walter, interpretado por Val Perré. Nessa percepção foucaultiana, temos o personagem que tem o “poder”, ou micro poder, de fazer com que os outros entrem e saiam da escola. Foi muito acertado a escolha feita pelo diretor, pois temos um personagem vivido por um ator negro e que, diferente de Saulo, outro negro, ainda não passou por um sentido de transcender aquele espectro autoritário e não tem entendimento do que o jovem quer passar com sua atitude, usando então do seu poder, para continuar a punir e vigiar, atendendo simplesmente os anseios do gestor.

            Durante boa parte do filme, vemos Walter, ali apenas como um representante do poder macro, no caso do diretor, vivido por Carri Costa. Essa representação é quebrada, já perto do final do filme, quando finalmente, ele percebe o que de fato, as ações de Saulo poderiam fazer naquela realidade e que não é o jovem o verdadeiro vilão da situação mas, sim, a ferramenta necessária para uma mudança.

            Só esse fato já poderia colocar esse filme como um dos mais poderosos feitos atualmente, um filme que conversa muito bem com a crítica social, com o cinema feroz e atuante de um Spike Lee, um cinema que questiona a sua própria realidade como visto em Eles não usam black-tie, enfim, um cinema que coloca, bem depois da sua cena final, que é triste e infelizmente real, algo pra pensar na cabeça daquele disposto a ver. Arte é isso. Arte é confronto. 



Um comentário:

CINEMA PERNAMBUCANO E 3 FILMES

              Hoje falaremos um pouco sobre o cinema pernambucano. A partir dos anos 2000, o cinema de Pernambuco se consolidou como um dos ...