segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

CONQUISTA SANGRENTA E O CINEMA DE PAUL VERHOEVEN

 


              

 

               Em 1985, chegava aos cinemas uma obra pequena em termos de orçamento e publicidade mas, com uma visão bastante transgressora e inovadora. Era uma época em que os filmes de capa e espada estavam em alta, filmes como A Lenda, de Rydley Scott, Willow (que agora recebeu uma continuação através de uma série do Dysney Plus), Ladywake – Feitiço de Áquila, Guerreiros do Fogo, entre tantos outros. O fato é que nenhum deles foi numa direção tão cínica e pessimista como o trabalho do holandês Paul Verhoeven.

              A trajetória cinematográfica de Verhoeven é bastante singular. Formado em Matemática (assim como esse que vos escreve), o então jovem se encantou com o cinema e iniciou sua carreira fazendo pequenos curtas e dirigindo alguns episódios de séries feitas para TV holandesa. Foi nesse período que conheceu Rutger Hauer, o ator que se tornaria uma espécie de alter ego do diretor, formando uma parceria de grande destaque e relevância, não só para o cinema holandês mas, para toda a história do cinema.


           Depois de ter conseguido tudo que queria no seu país de origem, criando obras irretocáveis como Louca Paixão, Soldado de Laranja e O Quarto Homem, Verhoeven via que era preciso expandir seus horizontes, criando desafios ainda maiores para o seu cinema e trabalhar em Hollywood era questão de tempo. O primeiro a aportar na terra da oportunidade foi o amigo Rutger Hauer, que chegou em grande estilo trazendo uma das suas melhores interpretações em Blade Runner – O Caçador de Androides.



          Com moral na indústria, Hauer logo tratou de chamar Verhoeven para juntos trabalharem em um novo projeto, projeto que esse que se chamaria Conquista Sangrenta.

           O trabalho em Conquista Sangrenta foi difícil de ser realizado, algo que para um diretor inexperiente poderia se tornar o seu fim. Isto porque a produção acabou se tornando mais cara do que o previsto, com uma infindável série de regravações, o que gerou inclusive um descontentamento por parte do seu protagonista, Rutgher Hauer, que resultou num desentendimento com o seu até então amigo e principal colaborador.


             A história se passa em torno de 1500, em uma região que podemos considerar como a Itália. Lá, conhecemos a rotina de um bando de mercenários, liderados por Martin (personagem de Hauer). O filme já inicia na ação, mostrando os mercenários numa missão para recuperar uma cidade e entrega-la para um senhor feudal, de nome Arnolfini(Fernando Hilbeck), logo depois, o grupo é traído pelo seu senhor e são destituídos das riquezas e das armas oriundos do último saque. Sem nada, Martin acredita ter tido uma visão divina, logo após achar uma estátua de São Martinho de Tours e com isso, partem para cima de Arnolfini, arquitetando um plano de vingança que envolve o filho do nobre, interpretado por Tom Burlinson e a sua esposa, vivida por Jennifer Jason Leigh.
              O roteiro é carregado de reviravoltas, algumas por sinal, poderiam até cansar o espectador, entretanto, o que salva é a personagem Agnes, a moça jurada em casamento para o filho do nobre, interpretada de forma surpreendente por Jennifer Jason Leigh, em um início de carreira fantástico(ela também estaria em A Morte Pede Carona). De início, a vemos como uma simples “dama em perigo” mas, no decorrer da trama, percebemos que ela é muito mais sagaz do que aparenta ser e se torna peça chave para o desenrolar da história.

 

           O filme apresenta certos entraves, principalmente no que diz respeito ao personagem vivido por Tom Burlinson. O seu Steven, filho de Arnolfini e que se mostra também um inventor, não é capaz de entregar a carga emocional suficiente para acreditarmos na sua situação trágica (a de ter sua esposa raptada e violentada pelo grupo de mercenários), contudo, não é capaz de estragar a obra como todo, visto que, o trabalho tanto de Hauer como de Leigh se mostra superior.

           Só a título de curiosidade, o filme teve tantas intromissões por parte da produção e do próprio Rutger Hauer (que não gostou do desfecho do seu personagem) que Verhoeven simplesmente deixou as gravações seguirem em um tom de improviso além do comum, pouco importando-se em seguir o roteiro. Fato é que, essa ação foi bastante conveniente, até porque o filme narra as aventuras de um bando de mercenários na era medieval e o jeito mais desregrado proposto pelo diretor foi até mais do que bem vindo.

           Todos os elementos do cinema de Verhoeven estão aqui: o sexo, a violência, o cinismo e um viés crítico as instituições, nesse caso ao que se refere à Igreja. Temas que seriam ainda melhor trabalhados em suas obras posteriores.  Evidentemente, muita coisa o diretor teve que fazer cortes, e uma versão do diretor até que seria interessante de se ver mas, de qualquer forma, não deixa de ser um acréscimo relevante na filmografia tanto de Paul Verhoeven como para Rutger Hauer. Uma pena que a relação entre os amigos tenha azedado ao ponto de decidirem nunca mais trabalharem juntos. Quantas histórias poderíamos ainda ter visto desses dois, não é mesmo?. 



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