quinta-feira, 27 de julho de 2023

SAM RAIMI E 3 FILMES

 




               Assim como um leitor observa um estilo adotado por um autor, ao longo do tempo, ou um pintor, uma banda de rock e por aí vai, o mesmo acontece obviamente no cinema. Para um diretor que é também autor, é fácil perceber elementos, características que permeiam cada filme que é realizado.

                  Mas como assim, você pode perguntar: “diretor que também é autor”? Nem todo diretor é autor? Pois é, meu caro, nem sempre o diretor consegue dar total vazão às suas ideias quando estão filmando ou no processo de pós-produção. Isso pode ser devido a uma série de fatores, que não vou me alongar hoje, mas com certeza, servirá como tema futuro.

                 Hoje darei um exemplo de um diretor autor, um sujeito que começou contra todas as expectativas, realizando um trabalho que, aqui nas terras tupiniquins, seria facilmente taxado de “cinema de guerrilha”. Alguém que depois de todo o sucesso, e entrando no esquema dos grandes blockbusters, ainda sim, mantém a sua visão acerca do processo criativo, tornando fácil para quem assiste, perceber todos os seus maneirismos. Estamos falando de Sam Raimi.

                   Nascido em 1959, no estado de Michigan, Estados Unidos, Samuel Marshall Raimi nos anos 70, já era considerado o que no futuro seria denominado nerd. Leitor voraz de quadrinhos e com gosto particular para o cinema de terror, Raimi foi despertando o interesse como realizador de cinema.

                 O cinema de Raimi tem como características um trabalho criativo no uso das câmeras, causando um nível de imersão absurdo, a mescla de horror com uma dose de comédia pastelão, a eficácia no uso de efeitos práticos e uma forma bastante peculiar de levar os protagonistas das suas histórias a um sofrimento que beira o sadismo. Vou apresentar aqui três exemplares, mas aconselho a ver todos. 

UMA NOITE ALUCINANTE 2

 


             Não tem jeito, falar de Sam Raimi é falar de sua criação máxima. Lançado em 1987, Uma Noite Alucinante 2 (título meio maluco porque o primeiro se chama A Morte do Demônio, mas enfim, Brazil) mudou o jogo para o então jovem diretor que, seis anos antes havia realizado o primeiro filme com o dinheiro de troco de pão, feito com os amigos da faculdade mas, que por incrível que pareça, fez um sucesso absurdo, muito sucesso inclusive fora dos Estados Unidos, fazendo um circuito vitorioso em vários festivais pelo mundo. Depois que Stephen King avaliou o filme falando que era a melhor coisa da década(!), o filme começou a fazer burburinho, sendo aclamado posteriormente, alavancado principalmente com a novidade que surgia na época: as videolocadoras. A história do filme? Sim, vamos lá. Apesar de ter o 2 no título, na realidade o que vemos nada mais é do que a mesma história do primeiro filme sendo recontada, desta vez com mais recursos, mas engana-se que se trata de uma mera refilmagem. Ash(papel da vida de Bruce Campbell) e sua namorada Linda (Denisse Bixler) vão passar o fim de semana numa região montanhosa, numa cabana longe de tudo e todos. O problema é que ao chegarem na tal cabana, Ash invoca, sem saber, espíritos determinados a transformar a noite do casal em verdadeiro inferno na terra. Para as plateias de hoje, mais cínicas e sem tanta vontade de se impressionar, o filme pode parecer algo como um trabalho de youtube, devido a precariedade dos efeitos e até mesmo das atuações, mas, não se deixe enganar, o que Raimi faz aqui fez história e se tornou referência para o cinema de horror. Nunca um passeio inocente numa cabana deserta foi visto da mesma forma.


UM PLANO SIMPLES


              Raimi é muito amigo dos Irmãos Cohen, tendo inclusive colaborado na parte técnica ou servido de influência em muitos dos filmes elaborados pelos dois irmãos. Era questão de tempo até o próprio Raimi também ser influenciado por eles. Aqui, numa pequena cidade interiorana, aquelas onde todo mundo se conhece, Hank (Bill Paxton) em uma caçada rotineira feita com seu irmão Jacob (Billy Bob Thornton) encontra os destroços de um avião, soterrados em uma densa camada de neve, ao investigar o local mais um pouco, Hank descobre malas e malas de dinheiro, cerca de 4 milhões de dólares! O que testemunhamos a seguir é a velha questão moral, que imediatamente a gente se colocar a fazer também: o que fazer ao esbarrar com 4 milhões? Simplesmente chama as autoridades ou fica com a grana? Pois é basicamente essa é a trama desse filme que, é até considerado subestimado na carreira do diretor, mas que pra mim, merece um lugar de destaque. No inicio fiz questão de contar a amizade de Raimi com os Cohen, e isso não foi à toa, porque esse é um tipo de história facilmente atrelado ao cinema deles. Temas como cobiça, moralidade e a total imprevisibilidade de uma crescente onda de pequenos erros que vão desembocar em um final catártico, fazem esse filme, altamente contido e sério, uma boa pedida.

 

DARKMAN – VINGANÇA SEM ROSTO



             Antes de Homem-Aranha e antes de Dr. Estranho no Multiverso da Loucura, houve Darkman. Pouco tempo depois de um outro jovem diretor, no caso Tim Burton, apresentar ao mundo sua visão de filme de super herói com Batman de 1989, Raimi percebeu que também poderia surfar na onda desse novo filão, apresentando uma história também baseada em quadrinhos. O personagem que escolheu foi o herói pulp dos anos 30 O Sombra, mas nenhum estúdio deu moral. Insistente, sabendo que não conseguiria os direitos do personagem para fazer o seu filme, ele então decide criar seu próprio personagem de quadrinhos. Na realidade, Darkman é uma verdadeira colcha de retalhos, com características que foram pegadas “emprestadas” de vários personagens diferentes, não só dos gibis, mas, também da literatura como O Médico e o Monstro, Frankestein. Liam Nesson (estreando no cinema de ação, olha só) dá vida ao cientista Peyton Westlake, que está perto de criar a pele artificial perfeita. Infelizmente, sua pesquisa e sua vida são brutalmente tiradas quando um grupo de criminosos invade o seu laboratório. Depois de ser brutalmente torturado, ele é deixado para morrer na explosão. Milagrosamente ele escapa, onde é levado para o hospital como indigente. Essa é a desculpa perfeita para que, um time de médicos o use como cobaia para uma experiência radical. Sem condições de suportar as terríveis dores das queimaduras, ele passa por um processo onde o trato espinotalâmico é cortado, o que lhe confere “superpoderes” como ser imune a dor e uma força sobre humana. Ao fugir do hospital, Peyton, agora totalmente desfigurado e sozinho, planeja a sua vingança contra aqueles que o destruíram. Tudo que veríamos com mais detalhes e apuro técnico nas aventuras de Peter Parker de Tobey Maguire estão presentes aqui. A atmosfera sombria, a trilha sonora do Danny Elfman, as questões morais, a violência atrelada ao humor somadas com uma eficiente atuação de Neeson tornam esse filme um exemplo palpável de como transpor a energia vibrante das histórias de quadrinhos em celuloide. 



domingo, 9 de julho de 2023

CÃO BRANCO E O RACISMO

                É triste constatar que a galera hoje em dia curte muito pouco ou praticamente abomina a ideia de assistir a filmes “antigos”. Coloco em aspas pois, pra esse pessoal, a ideia de antigo é qualquer coisa lançada em 2018! Esse “problema” só não é pior que o outro, que esse sinceramente, eu não suporto toda vez que ouço, o problema da preguiça que vem acompanhado daquela frase: “Tem na Netflix? Se não tiver, não vejo”.  

               Esse tipo de conversa por si só já daria muito pano pra manga para uma discussão mais acalorada, mas, vou me conter um pouco mais porque a conversa é pra falar de outra coisa, que tá atrelada a essa ideia de “filme antigo”: vamos falar sobre Cão Branco.

               Samuel Fuller, diretor do longa e também criador do roteiro junto com Curtis Hanson (que mais tarde ficaria famoso com seu Los Angeles – Cidade Proibida), tem aqui seu último trabalho em território norte-americano, visto que, Fuller sempre foi um diretor apegado ao controverso e temas subversivos. De fato, os EUA não estavam preparados para muitas das ideias que Fuller pregava em seus filmes.

                Nesse longa, lançado no longínquo ano de 1982, Fuller se propõe a discutir como se nasce o discurso de ódio e como a estupidez de tal discurso pode chegar a consequências aterradoras. O filme inicia quando uma jovem, de nome Julie(Kristy McNichols) atropela um pastor alemão e sem saber quem é o dono, ela o leva para casa para tratar seus ferimentos. Os dias vão passando e mesmo colocando panfletos (galera do zap, estamos em 1982 tá?) o dono nunca aparece, então ela decide ficar com o bichinho, um enorme cão branco (que dá título do longa).

                Mas algo de muito estranho existe no cão, que tem um modo operandi de ataque bastante peculiar: ao se deparar com pessoas negras, o cão aparentemente dócil se transforma em uma fera imparável. Depois de quase matar uma colega dentro do seu trabalho e de uma ataque dentro de uma igreja (cena essa bem intensa), Julie decide que o melhor para o cachorro é trata-lo, levando-o para um especialista em psicologia animal, na trama interpretado por Paul Winfield, numa tentativa de fazer com que o bicho tire esse ódio que, evidentemente não nasceu junto com ele mas sim, foi devidamente condicionado pelo seu dono anterior.

               É muito sútil a forma como Fuller traça essa alegoria de culto ao ódio, fugindo do filme básico de fera aterrorizante que mata de forma indiscriminada. Nunca vemos como foi feito o treinamento para que o cachorro criasse essa aversão às pessoas negras, mas nem precisava. O que a trama quer levantar é: o racismo é algo tão irracional assim? E outra questão, que considero até mais importante: assim como o cão, que foi ensinado a odiar, nós também não seriamos passíveis dos mesmos tipos de “ensinamentos”?
                É uma pena que na época em que foi lançado, o filme sofreu severos boicotes, inclusive do próprio estúdio, que acuado, por diversas organizações sociais que viram com horror uma história de um cão assassino que mata gente preta, tratou por fazer um esquema de lançamento pífio, praticamente escondendo o filme do público. Lançado hoje, certamente entraria no hall da cultura do cancelamento, devido a sua temática totalmente ácida e repulsiva. Para Samuel Fuller, esse tipo de coisa, seria um belo de um elogio.



 


CINEMA PERNAMBUCANO E 3 FILMES

              Hoje falaremos um pouco sobre o cinema pernambucano. A partir dos anos 2000, o cinema de Pernambuco se consolidou como um dos ...