Assim como um leitor observa um estilo adotado por um autor, ao longo do tempo, ou um pintor, uma banda de rock e por aí vai, o mesmo acontece obviamente no cinema. Para um diretor que é também autor, é fácil perceber elementos, características que permeiam cada filme que é realizado.
Mas como assim, você pode
perguntar: “diretor que também é autor”? Nem todo diretor é autor? Pois é, meu
caro, nem sempre o diretor consegue dar total vazão às suas ideias quando estão
filmando ou no processo de pós-produção. Isso pode ser devido a uma série de
fatores, que não vou me alongar hoje, mas com certeza, servirá como tema
futuro.
Hoje darei um exemplo de um
diretor autor, um sujeito que começou contra todas as expectativas, realizando
um trabalho que, aqui nas terras tupiniquins, seria facilmente taxado de “cinema
de guerrilha”. Alguém que depois de todo o sucesso, e entrando no esquema dos
grandes blockbusters, ainda sim, mantém a sua visão acerca do processo
criativo, tornando fácil para quem assiste, perceber todos os seus maneirismos.
Estamos falando de Sam Raimi.
Nascido em 1959, no estado
de Michigan, Estados Unidos, Samuel Marshall Raimi nos anos 70, já era considerado
o que no futuro seria denominado nerd. Leitor voraz de quadrinhos e com gosto
particular para o cinema de terror, Raimi foi despertando o interesse como realizador
de cinema.
O cinema de Raimi tem como
características um trabalho criativo no uso das câmeras, causando um nível de imersão
absurdo, a mescla de horror com uma dose de comédia pastelão, a eficácia no uso
de efeitos práticos e uma forma bastante peculiar de levar os protagonistas das
suas histórias a um sofrimento que beira o sadismo. Vou apresentar aqui três exemplares,
mas aconselho a ver todos.
UMA
NOITE ALUCINANTE 2
Não tem jeito, falar de Sam Raimi é falar de sua criação máxima. Lançado em 1987, Uma Noite Alucinante 2 (título meio maluco porque o primeiro se chama A Morte do Demônio, mas enfim, Brazil) mudou o jogo para o então jovem diretor que, seis anos antes havia realizado o primeiro filme com o dinheiro de troco de pão, feito com os amigos da faculdade mas, que por incrível que pareça, fez um sucesso absurdo, muito sucesso inclusive fora dos Estados Unidos, fazendo um circuito vitorioso em vários festivais pelo mundo. Depois que Stephen King avaliou o filme falando que era a melhor coisa da década(!), o filme começou a fazer burburinho, sendo aclamado posteriormente, alavancado principalmente com a novidade que surgia na época: as videolocadoras. A história do filme? Sim, vamos lá. Apesar de ter o 2 no título, na realidade o que vemos nada mais é do que a mesma história do primeiro filme sendo recontada, desta vez com mais recursos, mas engana-se que se trata de uma mera refilmagem. Ash(papel da vida de Bruce Campbell) e sua namorada Linda (Denisse Bixler) vão passar o fim de semana numa região montanhosa, numa cabana longe de tudo e todos. O problema é que ao chegarem na tal cabana, Ash invoca, sem saber, espíritos determinados a transformar a noite do casal em verdadeiro inferno na terra. Para as plateias de hoje, mais cínicas e sem tanta vontade de se impressionar, o filme pode parecer algo como um trabalho de youtube, devido a precariedade dos efeitos e até mesmo das atuações, mas, não se deixe enganar, o que Raimi faz aqui fez história e se tornou referência para o cinema de horror. Nunca um passeio inocente numa cabana deserta foi visto da mesma forma.
UM PLANO SIMPLES
DARKMAN – VINGANÇA SEM ROSTO
Antes
de Homem-Aranha e antes de Dr. Estranho no Multiverso da Loucura, houve
Darkman. Pouco tempo depois de um outro jovem diretor, no caso Tim Burton,
apresentar ao mundo sua visão de filme de super herói com Batman de
1989, Raimi percebeu que também poderia surfar na onda desse novo filão,
apresentando uma história também baseada em quadrinhos. O personagem que escolheu
foi o herói pulp dos anos 30 O Sombra, mas nenhum estúdio deu moral. Insistente,
sabendo que não conseguiria os direitos do personagem para fazer o seu filme,
ele então decide criar seu próprio personagem de quadrinhos. Na realidade,
Darkman é uma verdadeira colcha de retalhos, com características que foram
pegadas “emprestadas” de vários personagens diferentes, não só dos gibis, mas,
também da literatura como O Médico e o Monstro, Frankestein. Liam Nesson
(estreando no cinema de ação, olha só) dá vida ao cientista Peyton Westlake, que
está perto de criar a pele artificial perfeita. Infelizmente, sua pesquisa e
sua vida são brutalmente tiradas quando um grupo de criminosos invade o seu
laboratório. Depois de ser brutalmente torturado, ele é deixado para morrer na
explosão. Milagrosamente ele escapa, onde é levado para o hospital como
indigente. Essa é a desculpa perfeita para que, um time de médicos o use como cobaia
para uma experiência radical. Sem condições de suportar as terríveis dores das
queimaduras, ele passa por um processo onde o trato espinotalâmico é cortado, o
que lhe confere “superpoderes” como ser imune a dor e uma força sobre humana.
Ao fugir do hospital, Peyton, agora totalmente desfigurado e sozinho, planeja a
sua vingança contra aqueles que o destruíram. Tudo que veríamos com mais
detalhes e apuro técnico nas aventuras de Peter Parker de Tobey Maguire estão presentes
aqui. A atmosfera sombria, a trilha sonora do Danny Elfman, as questões morais,
a violência atrelada ao humor somadas com uma eficiente atuação de Neeson tornam
esse filme um exemplo palpável de como transpor a energia vibrante das
histórias de quadrinhos em celuloide.


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