domingo, 9 de julho de 2023

CÃO BRANCO E O RACISMO

                É triste constatar que a galera hoje em dia curte muito pouco ou praticamente abomina a ideia de assistir a filmes “antigos”. Coloco em aspas pois, pra esse pessoal, a ideia de antigo é qualquer coisa lançada em 2018! Esse “problema” só não é pior que o outro, que esse sinceramente, eu não suporto toda vez que ouço, o problema da preguiça que vem acompanhado daquela frase: “Tem na Netflix? Se não tiver, não vejo”.  

               Esse tipo de conversa por si só já daria muito pano pra manga para uma discussão mais acalorada, mas, vou me conter um pouco mais porque a conversa é pra falar de outra coisa, que tá atrelada a essa ideia de “filme antigo”: vamos falar sobre Cão Branco.

               Samuel Fuller, diretor do longa e também criador do roteiro junto com Curtis Hanson (que mais tarde ficaria famoso com seu Los Angeles – Cidade Proibida), tem aqui seu último trabalho em território norte-americano, visto que, Fuller sempre foi um diretor apegado ao controverso e temas subversivos. De fato, os EUA não estavam preparados para muitas das ideias que Fuller pregava em seus filmes.

                Nesse longa, lançado no longínquo ano de 1982, Fuller se propõe a discutir como se nasce o discurso de ódio e como a estupidez de tal discurso pode chegar a consequências aterradoras. O filme inicia quando uma jovem, de nome Julie(Kristy McNichols) atropela um pastor alemão e sem saber quem é o dono, ela o leva para casa para tratar seus ferimentos. Os dias vão passando e mesmo colocando panfletos (galera do zap, estamos em 1982 tá?) o dono nunca aparece, então ela decide ficar com o bichinho, um enorme cão branco (que dá título do longa).

                Mas algo de muito estranho existe no cão, que tem um modo operandi de ataque bastante peculiar: ao se deparar com pessoas negras, o cão aparentemente dócil se transforma em uma fera imparável. Depois de quase matar uma colega dentro do seu trabalho e de uma ataque dentro de uma igreja (cena essa bem intensa), Julie decide que o melhor para o cachorro é trata-lo, levando-o para um especialista em psicologia animal, na trama interpretado por Paul Winfield, numa tentativa de fazer com que o bicho tire esse ódio que, evidentemente não nasceu junto com ele mas sim, foi devidamente condicionado pelo seu dono anterior.

               É muito sútil a forma como Fuller traça essa alegoria de culto ao ódio, fugindo do filme básico de fera aterrorizante que mata de forma indiscriminada. Nunca vemos como foi feito o treinamento para que o cachorro criasse essa aversão às pessoas negras, mas nem precisava. O que a trama quer levantar é: o racismo é algo tão irracional assim? E outra questão, que considero até mais importante: assim como o cão, que foi ensinado a odiar, nós também não seriamos passíveis dos mesmos tipos de “ensinamentos”?
                É uma pena que na época em que foi lançado, o filme sofreu severos boicotes, inclusive do próprio estúdio, que acuado, por diversas organizações sociais que viram com horror uma história de um cão assassino que mata gente preta, tratou por fazer um esquema de lançamento pífio, praticamente escondendo o filme do público. Lançado hoje, certamente entraria no hall da cultura do cancelamento, devido a sua temática totalmente ácida e repulsiva. Para Samuel Fuller, esse tipo de coisa, seria um belo de um elogio.



 


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