David Lynch nunca foi afeito a
criar histórias simples. Desde do seu primeiro filme, o visceral Erasherhead
que, Lynch sempre beirou entre temas que envolviam o bizarro, o fantástico e
por vezes até mesmo o sonho, onde muitas das cenas mais pareciam saídas de um
devaneio.
Mas, não são as histórias que ele levou para os cinemas que iremos falar hoje mas sim, a história que ele levou para as telinhas da TV. Vamos falar sobre Twin Peaks. Inicialmente pensado como um filme, a série teve duas temporadas iniciais (1990 – 1991) exibidas pelo canal ABC, com 30 episódios no total. Pra você ter ideia de como essa produção mudou tudo que entendíamos sobre séries de TV basta imaginar que sem ela, simplesmente não existiria várias outras como Lost, Under the Dome, Black Mirror Arquivo X e por aí vai. Toda série que vemos hoje que trata do sobrenatural, mistério e qualquer tipo de bizarrice deve muito as desventuras ocorridas na pequena cidade de Twin Peaks.
A trama, pelo menos da primeira temporada, narra a trágica morte da garota mais popular da cidade, Laura Palmer (interpretada por Sheryl Lee). Logo no primeiro episódio, seu corpo é encontrado e uma série de investigações se iniciam e a medida que os episódios avançam vamos percebendo que Laura tinha uma ligação bastante peculiar com vários moradores da cidade, onde cada um parece esconder um segredo. A história obviamente não fica apenas nisso, a vasta gama de personagens bizarros que vão aparecendo nos forçam a cada vez mais ficarmos presos nessa história, que ora parece um conto de terror, ora uma comédia, ora um romance. Tem tudo em Twin Peaks e nada parece ter sido colocado de forma aleatória ou para “encher linguiça”.
Outro personagem cativante é o
agente do FBI Dale Cooper(Kyle MacLachan). O nosso protagonista da série, Dale
é um sujeito nada normal, dotado de um senso de humor pra lá de estranho, ele
também possui dons que beiram o sobrenatural, tendo sonhos premonitórios que
ele registra tudo em seu gravador.
Visto hoje, a série tem alguns
pontos negativos. Após os dois primeiros episódios, simplesmente arrasadores, é
verdade que o ritmo se torna um pouco lento, o que torna proibitivo pra galera
que gosta de maratonar série em um fim de semana. Aqui não dá, é interessante
que cada episódio seja devidamente apreciado como ele foi exibido
originalmente, com um certo espaçamento, até pra deixar o cérebro compreender a
tamanha bizarrice que está sendo exibida. Outro aspecto ruim é que tem alguns
episódios simplesmente parecem andar em círculos, certamente, se fosse feito
hoje em dia, 10 episódios em cada temporada era mais do que suficiente.
Mas, tirando esses dois pontos, a
série é um primor, principalmente sua primeira temporada com um episódio final
que bota no chinelo qualquer filme de terror da série Invocação do Mal no
chinelo. É certo que a segunda temporada também tem seus méritos mas, é visível
um certo cansaço, principalmente porque depois da revelação de quem havia
matado Laura Palmer, parecia que a história tinha chegado ao fim e nota-se que
Lynch foi obrigado pela rede de TV, a “esticar” um pouco além a sua trama.
De qualquer forma, é inegável a
importância da série para a história, não só da TV norte-americana que foi
impactada com um conto sórdido de mistério, sexo, traições e terror mas, na
história da TV mundial. Afinal de contas, todos nós temos um pouco de
bizarrice.
Obs.: Uma terceira temporada foi feita, mais de duas décadas depois pela Netflix e vale uma conferida. Estranhamente, o streaming vermelhinho não colocou as duas primeiras (vai entender). Tem também um longa, Os últimos dias de Laura Palmer, lançado em 1992, que foi um fracasso tanto de crítica quanto de público mas, pra falarmos sobre ele, será em um outro post. Até.


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