quinta-feira, 8 de junho de 2023

DONALD GLOVER E ATLANTA

 


            Série é um troço que realmente necessita de comprometimento, pelo menos para mim. Eu não consigo ver 3 séries ao mesmo tempo, se inicio uma, tenho que acompanhar só ela por inteira. E esse “trabalho” fica mais difícil porque eu não sou fã de maratonas, visto que, a meu ver, isso tira totalmente a imersão da história toda, deixando tudo sem propósito, virando mais um “fast food”.

            Tirando toda essa minha birra, é complicado acompanhar séries. Afinal de contas, a nossa geração começou nesse negócio há bem pouco tempo atrás. Vai me dizer que você acompanhava Chaves e Chapolin temporada por temporada? Você nem sabia o significado desse termo, rs.

             São poucas as séries que me prendem, por isso a preferência por filmes, já que o nível de “comprometimento” é bem menor. Mas, de vez em quando, surge algo no horizonte, algo que chama a atenção e no texto de hoje, falarei um pouco sobre uma série que, definitivamente, muito mais gente deveria falar sobre, estou falando de Atlanta.


            A série, cria da mente de Donald Glover (um dos grandes nomes dessa geração que conta com Joordan Peele e Edgar Wright, só pra começar), narra a trajetória de vida de Earn(interpretado pelo próprio Glover), um sujeito sem nenhuma perspectiva, sem dinheiro, vivendo uma relação esquisita com sua ex e ainda tendo que lidar com as responsabilidades de criar sua filha. Decidido a mudar de vida, Earn se torna agente do seu primo, Alfred (Bryan Tyree Henry), rapper que está criando uma fama meteórica com a alcunha de Paper Boy.

             A série, que no momento que escrevo estas linhas está na sua terceira temporada, apresenta episódios relativamente curtos (entre 25 a 30 minutos), o que facilita o engajamento, embora eu aconselhe a não maratonar, assista 2 ou 3 episódios seguidos no mínimo e, se deixe pensar um pouco sobre as coisas que vê. O enredo mescla de forma muito satisfatória o drama e a comédia. A lista a seguir trás os melhores episódios de cada temporada, obviamente,  sob o meu ponto de vista. Mais uma vez, aconselho assistir tudo. Bora lá.

 

TEMPORADA 1, EPISÓDIO 7


             
Intitulado B.A.N.(nem conto o significado da sigla), o sétimo episódio da primeira temporada é um deleite. Com um humor ácido e uma dose de surrealismo, o episódio faz uma crítica sobre gênero, feminismo e intolerância. Há muito tempo não tinha rido tanto e, ao mesmo tempo, tinha ficado tão nervoso.

TEMPORADA 2, EPISÓDIO 6

            Teddy Perkins é a cereja do bolo de uma segunda temporada maravilhosa. Se quem acompanhava a série pensava que a mente inquieta de Glover já tinha dado o que podia, pensou muito errado! Suspense, terror, com claras inspirações em clássicos como O Iluminado, evidenciam que Atlanta definitivamente existe para quebrar qualquer tipo de barreira. Bizarrice de muito bom gosto.

 

TEMPORADA 3, EPISÓDIO 4

           A terceira e última temporada (até o momento), talvez represente uma proposta mais radical de ir contra a linearidade dos episódios, o que pode acarretar para alguns uma certa confusão e até mesmo um distanciamento da série. Mas, não se deixe enganar, os comentários sociais urgentes e o uso inteligente de vários gêneros como drama, horror, suspense e comédia ainda continuam. Nesse episódio em questão, intitulado The Big Payback (ou A Grande Vingança), não pretendo dar muito spoiler então, contarei a trama apenas com um questionamento: E se pessoas brancas, que foram descendentes de proprietários de escravos fossem condenados a restituir as pessoas que sua família escravizou no passado? 




quinta-feira, 18 de maio de 2023

CONTROL E IAN CURTIS

 


Existência... bem, o que isto importa?

Eu existo da melhor maneira que consigo.

O passado é, agora, parte do meu futuro,

O presente está totalmente fora de alcance.

O presente está totalmente fora de alcance.

Trecho da letra Heart and Soul


             Pode-se dizer que existem poucos filmes biográficos realmente muito bons. Isso porque existem inúmeros fatores que meio que deixam a obra um pouco “amarrada” e acabam atrapalhando o seu potencial. Agora, enquanto escrevo estas linhas, me vem na memória La Bamba (1987), The Doors(1991) e Control(2007).

               Control narra a história curta porém potente da banda Joy Division e mais especificamente, aborda a vida tortuosa do seu então líder e vocalista, o genial Ian Curtis.

              O período era a década de 70, a Inglaterra passava por um período de extremas mudanças sociais e políticas, a classe trabalhadora passava por grandes perrengues, graças a uma visão bastante intransigente da então Primeira Ministra, Margaret Thatcher. Em termos musicais, entretanto, o país passava por uma fase de extrema ebulição, aos poucos o rock psicodélico, que já sofria com desnecessários virtuosismos, dava espaço para o crescente punk, um som mais visceral e cru, oriundo de jovens sem nenhum estudo musical mas, com muita vontade em expressar uma mensagem para o mundo. Além disso, o glam rock, capitaneado por nomes como David Bowie e grupos como New York Dolls jogava contra qualquer tipo de parametrização, subvertendo a estética e trazendo à tona a libertação sexual.

               Nesse interim, o jovem Ian Curtis(interpretado com muita sobriedade por um desconhecido Sam Riley) vivia de forma pacata na cidade de Manchester. Se casando muito cedo aos 19 anos, já trabalhando no serviço público, Ian sentia que algo não estava certo. Ele almejava algo aliado à arte, mais precisamente trabalhar com música mas, a vida parecida que havia lhe dado um outro rumo, um rumo no qual ele não se sentia feliz. Foi em um show, em 1976, que mudou tudo. No palco quem estava era uma banda ainda dando seus primeiros shows e a plateia, que incluía Ian e sua esposa e mais um pequeno grupo de amigos, perceberam que ali havia uma possibilidade deles também, fazerem música. Ah, quem estava se apresentado eram os Sex Pistols...

              Com os amigos Peter Hook no baixo, Bernard Summer na guitarra e Stephen Morris na bateria, a banda estava pronta. Curtis ficaria a cargo das letras e da voz e aí a história da música passaria para uma nova fase.


              
 Ian sempre foi um amante, por assim dizer, dos tormentos da alma. Muito inspirado por gente como Bukowski, Cooper Clarke, Baudelaire, entre outros e também pelo ambiente opressor que era Manchester naquele período, Curtis traduzia toda a sua inadequação e angústia nas suas letras. Com 22 anos, Ian já se mostrava como um senhor de 80 anos. Os outros integrantes o viam como mais um entre eles mas, o que de fato acontecia, era que nas músicas, Ian já dava sinais de que algo o estava consumindo. A pressão com o sucesso repentino, os shows que estavam se acumulando, o nascimento da filha bem como sua relação extraconjugal e uma inevitável depressão aliada a um tratamento totalmente errôneo da sua epilepsia tornaram por criar uma pressão absurda em seus ombros.
              Era 18 de maio de 1980, numa manhã tipicamente cinza em Macclesfield, região próxima à Manchester, que sua esposa, Deborah Curtis, o encontra em casa, enforcado com as cordas de um varal. A banda havia lançado apenas o primeiro disco, Unkown Pleasures e estava com o segundo disco, Closer, já todo pronto e se encontrava às vésperas para uma turnê em solo norte-americano. Era o fim de um jovem poeta de apenas 23 anos mas, a sua curta passagem por aqui rendeu reverberações. Thom Yorke com o seu Radiohead, Eddie Vedder e o seu Pearl Jam, Bono Vox com U2, Renato Russo com a Legião Urbana, esses só são alguns que beberam e ainda bebem da fonte criada por Ian Curtis e o seminal Joy Division.
              

               O filme, dirigido por Anton Corbjin, é preciso e acompanha todas agruras e os poucos momentos felizes de Ian, onde Sam Riley entrega não só um personagem, mas uma pessoa de fato, com inseguranças, incertezas, com uma incapacidade latente em comunicar para aqueles que mais amava como se sentia, incapacidade essa que o trouxe a um fim trágico. Difícil imaginar outra pessoa a dirigir esse filme senão o próprio Corbjin, já que ele conheceu o grupo na sua época como fotógrafo e graças ao sucesso póstumo que a banda teve que fez com que o trabalho de Anton fosse visto por muito mais gente, sendo requisitado por várias bandas de sucesso mundial durante toda a década de 80, como Depeche Mode e U2.

                  Em nota, o filme é baseado não só nas memórias de Anton com a banda mas sim, do livro escrito pela própria esposa de Curtis, que por aqui teve o título Ian Curtis – Tocando À Distância. É um dos raros casos de leia, ouça e veja. Enjoy!

Quando a rotina é pesada e as ambições são pequenas

E o ressentimento voa alto mas as emoções não crescem

E estamos mudando nossos caminhos,

pegando estradas diferentes

Então o amor, o amor vai nos separar de novo

O amor, o amor vai nos despedaçar de novo

Trecho da letra Love Will Tear Us Apart Again 




segunda-feira, 10 de abril de 2023

SCORSESE E A DUALIDADE DE CRISTO

 


                 

               Tá certo que o texto tá atrasado mas, a questão não se trata de se amarrar a datas  e sim, de se atentar às mensagens que estas datas remetem. A Semana Santa nos leva a um período de reflexão mas isso não significa que a reflexão tenha que se limitar a um época especifica determinada pelo calendário, podendo ser feita a todo momento, todo dia e pasmem, você nem precisa ser católico pra isso.

             Durante muitos anos, a trajetória de Cristo vem sendo propagada pelo cinema, na verdade, desde os primórdios da sétima arte e muitos deles sempre estão fortemente atrelados à uma visão unidimensional do Filho de Deus, quase que como fugir disso, se tornaria uma heresia, algo abominável e que geraria revolta e descontentamento por parte do público.

             Pois bem, para um diretor como Martin Scorsese, a história seria diferente. Afinal de contas, o cinema de Scorsese nunca foi algo que estivesse afeito à uma experiência “simples”. Para aqueles que conhecem o diretor apenas pelos filmes de máfia como Os Bons Companheiros, Cassino ou o mais recente O Irlandês, saiba que ele vai muito além disso, na realidade, analisando a sua filmografia percebemos que durante toda a sua trajetória os seus filmes passearam por diferentes gêneros e estilos como comédia, suspense, terror, documentários e até musicais (Todd Philips tá assistindo muito inclusive um deles para se “inspirar” para o seu Joker: Folie à Dieux). E outro tema que poucos costumam atrelar ao diretor é o da religião.

              Com tantas obras que abordam a violência, talvez o mais desavisado estranhe que um tema como religião seja trabalhado na sua filmografia. Mas é só reparar que, desde o início de seu percurso como realizador, a religião e violência são coisas  inerentes em muitos dos personagens dos seus filmes e claro, era questão de tempo até ele retratar a trajetória de Cristo a partir de sua visão única e desafiadora.


                Ao ter conhecimento do livro A Última Tentação de Cristo, do grego Nikos Kazantzákis (sugiro fortemente que procure por essa obra), Scorsese meio que colocou o trabalho de adaptar essa história para o cinema como uma questão de honra. Isso porque o projeto de adaptação durou anos, mais especificamente 14 anos(!) até que fosse feito. Scorsese teve que ir contra vários executivos poderosos da indústria de Hollywood, que não queriam ver o seu dinheiro atrelado à uma obra tão “subversiva” e “herege” como muitos afirmaram. Ele levou muitos “nãos” na cara, até que finalmente pode ter o seu objetivo finalmente alcançado.

                Mas o que de fato tem de tão subversivo, herege, até mesmo demoníaco no livro e por consequência no filme? Na realidade, essa ideia tem muito mais a ver como a forma que, durante séculos, temos como “certa” a vida que Cristo teve e o que ele representa. Pois o que aprendemos como unânime e longe de qualquer discussão é que Cristo foi um ser divino e que como tal, esteve avesso à certos aspectos ditos como “humanos” tais como: medo, raiva, angústia e desespero.

                 O que o livro de Kazantzákis oferece é mostrar um Jesus simplesmente mais humano, alguém que esteve sempre ciente da sua importância mas, que também esteve com medo de ter tamanha responsabilidade, alguém que no início da sua peregrinação não entendia muito bem como lidar com seus dons mas que, no fim, percebe o que era preciso para chegar à redenção. Agora um breve aviso de SPOILER pra quem não leu o livro e nem assistiu ao filme. E porque esse título? A última tentação de Cristo seria o que? Bom, ao vermos Cristo sendo tentado diversas vezes pelo demônio para que seu objetivo como salvador não fosse concretizado, já no fim, estando crucificado, Cristo tem sua última batalha. Um anjo aparece para ele, dizendo que não era mais preciso que ele ficasse na cruz, sua missão estava completa e não precisaria mais sofrer. É nessa parte, principalmente, onde moram as principais críticas em relação à obra, porque o que vemos depois é que o que aconteceria com Cristo se ele tivesse uma vida normal, com filhos, esposa e envelhecendo até morrer. E ele escolhe ter uma vida normal e filhos não com qualquer mulher mas, com Maria Madelena(!), onde o livro narra (e o filme também mostra) cenas onde os dois tem relações sexuais. Pois bem, já no seu leito de morte, tendo vivido bastante, e usufruído de tudo que um ser humano poderia ter tido, Jesus é visitado pelos seus antigos discípulos para uma última conversa e ao ser confrontado por eles, Jesus percebe que foi enganado, na verdade o anjo que havia aparecido para ele na cruz era mais uma artimanha do demônio e que, tendo vivido uma vida simples como humano, havia condenado o mundo ao seu apocalipse. Cristo então tem o seu momento de redenção, ao negar a vida que teve para voltar ao sofrimento da cruz e enfim selar o seu destino como salvador.

               Talvez, estas linhas não demonstrem o tamanho rebuliço que o livro causou. A obra foi proibida em diversos países e considerada como blasfemo pela Igreja Católica. Mas o que motivou então Scorsese a mexer nesse vespeiro, colocando em risco a sua carreira no processo? Seria ele um ateu disposto a fazer uma obra atacando a igreja? Na verdade não.

               Como falei antes, a religião sempre foi um tema recorrente em muitos dos seus filmes, às vezes de forma explícita mas, também apenas subentendida, afinal de contas, aspectos como sacrifício e redenção estão em quase todos os seus filmes. O que levou Scorsese a enfrentar um sistema tão conservador como Hollywood foi a admiração que ele sempre teve à Cristo e a figura que envolvia o lado divino e humano. Segundo ele, “já haviam muitos filmes que abordam o lado divino de Cristo, sempre quis ver o aspecto humano, a natureza humana que havia em Cristo”. E foi justamente isso que ele viu ao ler o livro do Kazantzákis, e vale ressaltar que Scorsese é um católico fervoroso que, quase foi padre(!). Pois é, mesmo assim, ele viu na obra mais do que simplesmente algo feito para chocar, na realidade, ele viu uma visão de Cristo que, por mais ousada e cheia de liberdades que havia em relação à Bíblia, falava muito mais com suas ideias do que a visão totalmente divina com a qual havia crescido. Foi com profundo respeito e admiração ao personagem de Cristo que Scorsese resolveu levar às telas o livro mas, infelizmente, não foi com esse mesmo olhar que muitos viram e o diretor enfrentou diversos problemas tais como boicotes em festivais e até mesmo atentados à sua vida.

                 O ano era 1988, século passado e a visão de um Cristo mais humano, que mostrava suas falhas e tinha medo da morte não agradou muita gente. Será que hoje essa visão seria melhor aceita pelo público de hoje? Será que o conservadorismo e uma visão “pequena” das coisas ficaram no passado, abrindo caminho para que todos possam fazer uma análise mais crítica e contundente de temas considerados como “verdades incontestáveis”? Será que hoje podemos imaginar um Cristo mais humano e que se importa com os problemas que insistem em persistir na sociedade? Como o bispo de Nova York Paul Moore Jr, na época do lançamento do filme falou “algumas pessoas podem ficar chateadas ao ver Cristo representado como inteiramente humano, mas ele era. Espero que mentes mais sábias do que aqueles que ameaçam boicote vejam o filme e se sintam tocados por ele como eu me senti.” E como um meme bem comum hoje relacionado à figura de Martin Scorsese, isso meu caro, é cinema.

PS.: Este filme está na lista “obras que você precisa ver”. Nota 10.  


terça-feira, 21 de março de 2023

ARGENTINA E 3 FILMES

             

                   O cinema feito pelos nossos “hermanos” argentinos é considerado por muitos, como um dos melhores da América Latina. Na humilde opinião deste que vos escreve, fico mais do lado do Selton Mello, quando ele afirma que “o cinema argentino não é melhor que o brasileiro”. É fato que, os argentinos, por essa quase tendência em ser uma Europa dentro da América do Sul, tem em sua cultura cinematográfica muitas semelhanças com o cinema feito lá no Velho Mundo. O trabalho com diversos temas e, sobretudo, as boas experiências com o chamado “cinema de gênero” fizeram que a fama do cinema argentino se espalhasse de forma mais contundente, por exemplo, do que o nosso.

              Claro que, também fazemos cinema de gênero, claro que diversos temas, cada vez mais diferentes, são retratados por aqui pelos nossos cineastas brasileiros mas, ainda falta furar certas bolhas, atingir certos públicos e sobretudo, uma vontade maior por parte da indústria brasileira em querer também em sair desse lamaceiro que é por exemplo, a Globo Filmes. Se hoje, o público brasileiro, tido como “comum”, rasga elogios ao cinema argentino e tece comentários maldosos ao cinema feito no seu próprio país, isso se deve muito ao fato de que o verdadeiro cinema brasileiro ainda não consegue furar a bolha de festivais especializados e que são vistos por uma plateia de nicho, deixando a impressão pobre de que o nosso cinema é apenas as comédias produzidas pela outrora, maior rede de TV do Brasil. Mas enfim.... isso é papo pra outra conversa. Agora vou destacar aqui três exemplos do cinema feito por nossos vizinhos, que acreditam que estão vivendo numa Europa(rs). Brincadeiras à parte, o cinema argentino tem muito o que comemorar. 

              Como toda lista que faço, dois pontos são importantes de frisar. Primeiro: a lista é minha e não tem como agradar todos, se quiser faça a sua. Segundo: não costumo indicar obviedades então, fui procurar obras mais “lado b”, fugindo um pouco dos “blockbusters” mais reconhecíveis. Vamos lá....

 

1. O HOMEM AO LADO


                    Imagina a seguinte situação: você está em sua casa e decide fazer uma obra, no caso, construir uma janela. Ao fazer isso, descobre que a janela dá de cara com o seu vizinho, que mora ao lado, vizinho esse que você detesta pois representa o seu oposto em todos os aspectos. O que fazer? O que é certo e errado?. Óbvio, o filme de Gastón Duprat e Mariano Cohn vai muito além dessa premissa “simples”, que poderia ser fácil um tema para uma comédia, uma premissa que poderia acontecer com qualquer um. Essa “história de vizinhos” acaba tendo desdobramentos bastante sérios.... Costumes, hipocrisia, família e arquitetura(!) mesclados em um filmaço. 

2. O ÚLTIMO ELVIS


 

            Essa pérola desconhecida do Armando Bó merece ser descoberta. Na trama, temos Carlos Gutierrez (Jonh Mclnerny no trabalho da sua vida), ele não é apenas mais um cover do Rei do Rock, ele simplesmente acredita ser o tal, tanto que nega com unhas e dentes ser chamado de Carlos, ele é Elvis, vinte quatro horas por dia e ponto. A medida que a sua idade vai se aproximado da idade de morte de Elvis, ele sente cada vez mais um vazio. Para completar, problemas do passado vem à tona, personificados principalmente por sua filha Lisa Marie (a inspiração é óbvia!) o que coloca nosso Carlos/Elvis num dilema que pode representar o ápice ou a tragédia na sua vida. É drama daqueles de chorar.

 

3. NOVE RAINHAS


               Estava reticente em colocar essa indicação aqui pois, ao meu ver, quebrava com a minha segunda regra de elaboração de listas mas, este vale a pena. Nove Rainhas tem uma das tramas mais bem acertadas do cinema argentino, digo, do cinema em modo geral. Aqui, acompanhamos uma Argentina cheia de pessoas dotadas com a mais sútil arte de elaborar trapaças, tudo para conseguir alguns trocados e irem sobrevivendo, um dia de cada vez. Ninguém escapa, seja um pequeno proprietário de uma lojinha de conveniências ou uma velhinha inocente, todos são alvos em potencial de gente que vê na arte da trapaça uma filosofia de vida. Um destes ladrões, Juan(Gaston Pauls) tem uma chance única de mudar de vida quando outro trapaceiro Marcos (Ricardo Darín) lhe conta que na cidade está um milionário com hobby em selos. A ideia é simples: oferecer ao colecionador os selos das Nove Rainhas (daí o título do filme), avaliado em meio milhão de dólares. Acontece que eles irão apresentar uma réplica dos selos, ficando assim com os originais e o dinheiro da transação. Mas logo nem tudo sai como combinado e uma verdadeira comédia de erros, com direito a inúmeras reviravoltas vão colocar esse golpe num dos mais ousados que o cinema já mostrou. Aqui temos o filme que levou Darín ao estrelato, mostrando lá  no ano 2000 que a Argentina já não andava bem das pernas, com uma crise social e econômica que estava prestes a explodir. Se ainda não viu ainda, pare o que está fazendo e corrija este erro.  

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

ILHAS DAS FLORES E O BRASIL QUE INSISTE EM CONTINUAR O MESMO

 

             

Sempre é bom rever filmes, reler livros e com eles recordar um pouco uma época não muito distante (ou será que é?) e imaginar como eram simples e tranquilos aqueles tempos. Evidente que, muito daquilo imaginado esteja apenas na mente mesmo, sendo constantemente modificado, reconfigurado para que nós, sempre possamos dizer: “como eram bons aqueles tempos”. Às vezes, é só o seu cérebro tentando lhe enganar.

            Essa sensação, de que estava sendo enganado pela minha mente, surgiu ao rever Ilha das Flores, trabalho estupendo de Jorge Furtado. Para mim, a primeira vez que tive contanto com o filme foi na escola, na distante década de 90, numa aula de geografia, ministrada pela professora Cristina. E já vou pedindo desculpas por lembrar apenas do primeiro nome da professora mas, talvez seja a minha mente tentando já pregar uma peça, rs.


             De fato, não tinha como, naquela época, assistir a um filme desses se não fosse trazido por uma professora “diferente” em uma escola pública que não tinha nada de diferente. A professora Cristina demorou pouco tempo naquele ano (foi substituída) mas, teve tempo de trazer pra nossa sala o filme Ilha das Flores.

             O filme, datado de 1989, apresenta em seus 13 minutos, uma denúncia real, mostrando uma situação degradante vivida pela população mais pobre de uma região do Sul do país. A história é simples e concisa, nela conhecemos o lugar que dá título ao filme, uma região nas proximidades de Porto Alegre, onde há um lixão, cujo os funcionários separam o material orgânico adequado para alimentar os porcos e o restante não usado é dado para alimentar mulheres e crianças (!). Fora o choque inicial de saber que, aquilo que não é usado para alimentar um porco é dado para um ser humano comer, ainda descobrimos que os funcionário do local separam em pequenos grupos e oferecem cinco minutos(?) para que as pessoas peguem o máximo possível no meio do lixo.

             Por que esse filme em questão me mexeu tanto na memória? Porque esse é um dos melhores filmes brasileiros sem sombra de dúvidas. Um filme que, infelizmente retrata uma situação que insiste em continuar no nosso país e não só nele. E que por essa razão, não fica fácil de sair da cabeça por quem o assiste.

             O mais interessante que, ao ver hoje, pude perceber detalhes que na primeira vez que vi não tinha me atentado. Os recursos cinematográficos usados por Jorge Furtado são de uma genialidade ímpares. Desde o primeiro momento, somos levados pelo narrador (ninguém mais ninguém menos que Paulo José) a uma rede, quase infindável, de conexões até nos depararmos com o final, que é poético, desolador e nem um pouco otimista.

             Depois de uma década imerso nesse mundo de conexões que a internet oferece, pude perceber que lá em 1989, quando o computador só aparecia em filme de ficção científica, Furtado meio que anteviu o que iria acontecer. Digo isso pois, a forma como o filme é feito, evidencia que ele antecipou e muito, o que vemos hoje na net.

             Pra começar, temos o formato da obra, que é todo feito como um vídeo-ensaio. Pra quem não sabe, basta ver no Youtube milhares de canais que se utilizam desse modo de produzir vídeos para perceber que o filme de Furtado faz uso desse artifício. Curioso pra saber? Veja o filme e procure no Youtube canais que fazem o mesmo e descubra. Não será nada difícil.

             O uso de narração acompanhado de inúmeras imagens ilustrativas, cortes rápidos, edição precisa e um texto carregado de humor e ironia nos momentos certos, deixam a obra “fácil” de digeri-la. É justamente essa sacada que Furtado tem e ele faz muito bem. No primeiro momento, somos bombardeados com conceitos, que embora todos nós sabemos, fica divertido de ver justamente devido as conexões que cada uma dessas definições é colocada no filme. “Como assim divertido?”, você pode perguntar. Como um filme que, na verdade é uma denúncia real sobre como a população mais pobre de uma determinada região do país é tratada de forma menos indigna do que um porco pode soar divertida é porque, a apresentação dessa denúncia feita pelo diretor é toda planejada para que tenhamos esse choque. Primeiro vemos as conexões com palavras chave como tomate, humano, dinheiro, lucro, entre outras até chegarmos de fato, a denúncia que o filme propõe fazer. Em uma cena a gente ri, pra logo depois ficarmos estupefatos com outra cena onde uma criança tem cinco minutos para pegar o resto de comida do lixo. É essa dicotomia que o diretor usa de forma até cruel.

              Outro fato que mostra como esse é um filme visionário é como ele trabalha um conceito bastante em voga nos dias de hoje e que você que está lendo agora usa diariamente. Falo do conceito de hiperlink.

               Hiperlink é o termo que é dito para mostrar como a internet funciona. Afinal de contas, a net nada mais é do que um emaranhado de informações, cada um conectado a um link, que ao clicarmos sobre ele aparece um outra informação que é acompanhado de outro link e assim sucessivamente. Em outras palavras, é o hiperlink que faz com que começamos a pesquisar sobre bomba atômica no Google e duas horas depois estamos lendo uma fofoca do Big Brother Brasil.

               E é esse conceito, da definição de uma palavra-chave que vai levando a uma outra palavra-chave e assim por diante, que o filme utiliza. Dos seus 13 minutos, pelo menos os 6 iniciais são totalmente baseados dessa forma. São tantos os conceitos, e todos eles ligados de forma bastante coerente que poderíamos até elaborar um mapa mental sobre tudo que o filme fala.

               


            Olha ai um mapa mental só com os conceitos apresentados no filme. Esse é um. Será que você pode fazer sempre um desses pra cada filme que você assiste? Fica a dica.

             Sendo assim, não tem como lamentar como a situação inumana apresentada no filme, ainda é vivida por muitos daqueles que não tem como ao menos ter o direito à comida. Direito à necessidades básicas e o direito à uma vida digna. Infelizmente, o descaso com a população mais pobre sempre foi falada mas nunca combatida e cenas, como a que vemos no filme, se tornaram tão corriqueiras que o nosso cérebro faz com que tal situação seja confortável. E isso não pode ser assim. O cérebro é capaz de nos pregar peças mas, ao mesmo tempo, é com ele que podemos mudar a nossa realidade.


              


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

GLASS ONION E O CINISMO DE RIAN JONHSON

 

                Benoit Blanc (Daniel Craig) aporta na Netflix com uma nova investigação cheia de bom humor, bizarrices e acidez social, que foram tão bem dosadas na sua primeira aventura, o também divertido Entre Facas e Segredos. O novo filme, Glass Onion¸ que tem um subtítulo horrível que nem ouso colocar nestas linhas (o subtítulo serve mais para pegar os desavisados que se trata de uma sequência) mostra, mais uma vez, que o cinema de Rian Jonhson não é de brincadeira.



                

                 Este é o sexto filme do diretor e é interessante ver a sua escalada em relação aos temas que aborda em cada um dos seus filmes e a marca que cada vez é mais evidente: o cinismo.

            Em Looper, tínhamos uma história de viagem no tempo ao mesmo tempo interessante e intricada, já em Star Wars – Os Últimos Jedi, Rian levou ao máximo o seu cinismo criando uma história que causava uma disrupção tão grande em vários “dogmas” da franquia Skywalker que acabou assustando e causando a ira de muitos fãs ardorosos da saga espacial, o que levou uma mudança de planas drástica da Dysney, culminando no deplorável Star Wars A Ascensão Skywalker, um filme que no futuro certamente será estudo na aula ”Não faça um filme querendo agradar todo mundo”.

          Disrupção, veja que essa palavra permeia toda a estrutura de Glass Onion e é cada vez mais perceptível como as intenções de Jonhson em querer criar algo ao mesmo tempo, permeado de clichês notórios, para logo em seguida quebrar com todas as previsões, só aumentam a cada filme seu e isso é simplesmente, maravilhoso.

             Na trama, que é toda feita tendo a pandemia como pano de fundo, temos um grupo de “amigos” (bota aspas nisso) sendo convidado por um deles para um fim de semana numa ilha remota, o motivo é bem simples: eles tem que desvendar quem o assassinou. Vamos sendo apresentados a cada um do grupo, há a celebridade em declínio(Kate Hudson) que passa por problemas sérios toda  vez que abre a boca, o cientista (Leslie Odom Jr), uma política (Kathryn Hahn), um atuante nas mídias sociais que leva seu discurso pró armamento (Dave Bautista) e uma antiga parceira(Janelle Monáe) que tem assuntos sérios a resolver. Todos foram convidados pelo excêntrico Miles Bron (vivido por um Edward Norton satisfeito com o papel), que veste a máscara de gênio incompreendido mas que, na verdade, tem muito a esconder.


               Alguns podem até dizer que o filme tem uma estrutura inicial simples demais ou que é apenas “bobinho” mas, a intenção do diretor é propor justamente essa falsa ideia de simplicidade nas ações que se apresentam durante o filme, para depois, apresentar uma reviravolta interessante. Há ainda uma camada de acidez que Johnson solta ao abordar a total futilidade da chamada “classe abastada”, com todas as suas idiossincracias. Basta ver o personagem de Norton, o seu Miles Bron não tem nenhum cuidado em não se parecer com o Elon Musk, no filme vemos um sujeito estúpido que se utiliza da inteligência dos outros para se promover e ficar milionário, não se preocupando nenhum pouco com consequências. É um subtexto mordaz e que traz um vigor para a obra. 

              Por se tratar de uma sequência, este novo filme, diferente do primeiro, tem ainda uma bela vantagem que é o personagem de Craig (o nosso detetive de intelecto diferenciado e bastante perspicaz aos detalhes), já ser devidamente conhecido do público, muito embora, tanto no primeiro como neste filme, aos poucos vamos conhecendo mais detalhes íntimos do personagem, o que mostra mais uma sacada esperta do diretor, nos deixando ainda mais curiosos por mais detalhes da vida do personagem.

              Daniel Craig, definitivamente, tem o personagem da vida aqui, até numa situação melhor do que na época(não muito distante) em que carregava o posto de 007. Melhor porque, diferente do agente britânico, o personagem de Blanc não requer ao astro, peripécias acrobáticas ou momentos de ação enervantes. É um tipo de personagem que pode ser seu até os 60 anos(rs) ou mais. E se as próximas aventuras(que com certeza haverá) desse detetive forem realizadas com todo esse afinco, pode ter certeza, que estarei esperando com a expectativa nas alturas. 


sábado, 4 de fevereiro de 2023

CABEÇA DE NÊGO E A RELAÇÃO COM FOUCAULT

 


            

            Michel Foucault (1926-1984) foi e ainda é, um dos principais filósofos contemporâneos. Seus estudos que foram deixados para posteridade retratam um pensador inquieto, crítico das relações humanas, sejam elas feitas de forma macro e micro e sobre as chamadas relações de poder que existem em diversos níveis dentro da nossa sociedade.

            Existem diversos períodos da vida acadêmica de Foucalt, que poderiam levar anos e anos de discussões e estudos. Mas, agora, para esse texto, irei apenas me ater ao chamado Foucault genealógico. Esse período foi fortemente marcado por uma de suas obras máximas, chamado Vigiar e Punir. Nessa obra, ele apresenta a história das instituições disciplinares, indo de presídios até hospitais, passando por escolas e igrejas e como todas estão, de alguma forma, ligados a aplicação da disciplina por excelência, dentro de um aspecto sócio-político, ditando assim, nossa forma de pensamento e de convívio na sociedade.


            E pra que todo esse introdutório? Porque nosso filme em questão trata justamente deste tema. Cabeça de Nêgo (2021)¸ roteirizado e dirigido por Déo Cardoso, aborda justamente essas relações de poder que existem, no caso uma escola de ensino, pública, totalmente abandonada pelo próprio poder público e  carente em diversos níveis.

             No filme, vemos o personagem de Saulo Chuvisco (Lucas Limeira), introvertido e traumatizado por uma tragédia familiar e que, percebendo o descaso que sua escola sofre, decide ele mesmo, impor mudanças, entrando em atrito direto com alguns professores, que o veem como um empecilho à sua zona de conforto e principalmente, arranjando briga com a gestão da escola, criando assim um clima insustentável. O estopim, ocasionado através de um insulto racista dentro da sala de aula, leva Saulo até as últimas consequências para pôr em prática a sua visão de justiça.


            E qual a relação de Foucault com o filme em questão?  Existem várias camadas que poderíamos tirar do filme mas, o que me chama mais atenção é a questão, que Foucault coloca como Microfísica do Poder. Para o leitor entender vou dar um pequeno spoiler das atitudes de um personagem do filme mas, que ao meu ver, não compromete o impacto da trama. Vamos lá....

           Saulo, no seu ato de rebeldia contra o sistema em questão, decide não sair das dependências da escola, fazendo assim uma ocupação, com o intuito de mostrar a realidade dura e aterradora da escola, como a merenda que está vencida, livros que estão abarrotados dentro de um almoxarifado e que nunca foram usados, banheiros degradantes e salas de aula sem nenhum conforto. Dentro dessa instituição, vemos o personagem do porteiro, de nome Walter, interpretado por Val Perré. Nessa percepção foucaultiana, temos o personagem que tem o “poder”, ou micro poder, de fazer com que os outros entrem e saiam da escola. Foi muito acertado a escolha feita pelo diretor, pois temos um personagem vivido por um ator negro e que, diferente de Saulo, outro negro, ainda não passou por um sentido de transcender aquele espectro autoritário e não tem entendimento do que o jovem quer passar com sua atitude, usando então do seu poder, para continuar a punir e vigiar, atendendo simplesmente os anseios do gestor.

            Durante boa parte do filme, vemos Walter, ali apenas como um representante do poder macro, no caso do diretor, vivido por Carri Costa. Essa representação é quebrada, já perto do final do filme, quando finalmente, ele percebe o que de fato, as ações de Saulo poderiam fazer naquela realidade e que não é o jovem o verdadeiro vilão da situação mas, sim, a ferramenta necessária para uma mudança.

            Só esse fato já poderia colocar esse filme como um dos mais poderosos feitos atualmente, um filme que conversa muito bem com a crítica social, com o cinema feroz e atuante de um Spike Lee, um cinema que questiona a sua própria realidade como visto em Eles não usam black-tie, enfim, um cinema que coloca, bem depois da sua cena final, que é triste e infelizmente real, algo pra pensar na cabeça daquele disposto a ver. Arte é isso. Arte é confronto. 



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